Preconceito Linguístico

Enviada em 05/09/2020

Na obra “Vidas Secas”, o escritor Graciliano Ramos transporta o leitor para o sertão nordestino, marcado pela exclusão, autoritarismo local e, apesar de tudo, esperança. Na narrativa, Fabiano e sua família, devido à inexistência de escolaridade, dificilmente comunicam-se através de palavras, sendo os ruídos predominantes na linguagem dos retirantes, gerando situações desconfortantes para os personagens.  Analogamente, o preconceito linguístico na sociedade brasileira é bastante presente no contexto contemporâneo e seus fatores relacionam-se com diversos aspectos do tecido social. Nesse âmbito, é necessário compreender a variação linguística da sociedade brasileira, bem como o preconceito intrínseco atrelado à essa manifestação.

Em primeira análise, destaca-se a grande diversidade de expressões linguísticas como um reflexo do contexto sociocultural. Desse modo, segundo o sociólogo Gylberto Freyre, a simbiose entre diversas culturas da sociedade brasileira é o pilar primordial que compõe o sentimento de nacionalidade. Assim, dentre essa amalgama de expressões culturais, os variados contextos socioeconômicos e regionais influenciam diretamente nessas formas de comportamentos, essencialmente, na produção literária, no modo de falar e relacionar-se com o outro. Contudo, o olhar etnocêntrico reduz essa variedade de manifestações culturais como algo inferior, descartável, passível de preconceito, primordialmente, fatores relacionados com a linguagem marginalizada, que carrega vivências e uma visão de mundo diferente da hegemônica.

Além disso, é imprescindível pensar no preconceito relacionado à linguagem como um fator de marginalização social. Nesse sentido, as manifestações culturais da periferia, inseridos em um contexto de exclusão e preconceito histórico, como o rap, funk e o samba, sob a égide do discurso “erudito”, constantemente, são relacionados com a falta de cultura, violência e, absurdamente, apologia ao crime organizado. Nessa perspectiva, o preconceito linguístico da cultura hegemônica, subordinada ao grande capital, com o objetivo de silenciar as vozes da periferia do sistema e sufocar a realidade dessas populações, denegri, exclui, além de restringir espaços culturais para essas formas de resistência.

Infere-se, portanto, que o preconceito linguístico se relaciona com diversos fatores, como contexto regional e socioeconômico. Nesse sentido, é primordial que o Governo Federal em conluio com MEC - Ministério da Educação – Insira nos currículos escolares da educação básica conteúdos e habilidades, como diversidade  linguística na sociedade brasileira, por meio de filmes, animações, livros didáticos e apresentações teatrais que problematizem a problemática do preconceito linguístico, envolvendo interdisciplinaridade com matérias como história, literatura, geografia e sociologia.