Preconceito Linguístico

Enviada em 13/09/2020

O português falado no Brasil deriva não somente da língua do colonizador europeu, mas também da influência dos dialetos indígenas e africanos. No entanto, apesar dessa diversidade na formação do idioma, a gramática selecionou uma pequena parte do léxico e considerou-a como padrão. Essa seleção privilegiou o modo de falar das elites em detrimento das classes mais pobres, o que produziu a falsa ideia de que esse grupo fala errado. Sendo assim, o preconceito linguístico no Brasil é fruto do conceito errôneo de que qualquer variação do português, que não contemple a norma-culta, está incorreta, fato que acentua a desigualdade social no Brasil.

A princípio, a seleção parcial da forma “correta” do idioma é uma forma das classes dominantes subjugarem o restante da população. Nesse sentido, segundo o filósofo francês Michel Foucault, o poder articula-se como uma forma de linguagem que cria controle e coerção, aumentando a dominação de um grupo sobre outro. Sob tal perspectiva, o preconceito linguístico, pautado sob o viés da valorização excessiva da norma-culta, reproduz a desigualdade do país na medida em que apenas um seleto grupo foi contemplado por ela. Logo, a manutenção desse pensamento é, no mínimo, preocupante, visto que esse preconceito, de acordo com Foucault, impede que a igualdade seja alcançada no Brasil, pois o indivíduo é excluído, a priori, pela maneira como fala.

Consequentemente, mesmo que os interlocutores brasileiros possam estabelecer uma comunicação em que ambos se entendam, já que se trata de um mesmo idioma, o preconceito linguístico faz com que somente aquele que recorrer à norma-padrão seja socialmente aceito. Essa situação ocorreu com a autora Carolina Maria de Jesus, catadora de lixo a qual teve seus diários transformados no livro “Quarto de Despejo”. Por conta de sua baixa formação acadêmica, devido a sua origem humilde, várias palavras presentes na obra destoam da norma-culta e, por isso, essa produção foi muito criticada na época de sua divulgação. Nesse ínterim, esse exemplo mostra que, no Brasil, a adesão ao português considerado correto depende da classe social do indivíduo, conforme Foucault, e, dessa forma, a discrepância entre as classes sociais brasileiras tende a aumentar.

Portanto, tendo em vista que o preconceito linguístico deriva de uma normatização parcial da língua, a qual excluiu a diversidade do português falado no Brasil, urge que o Governo Federal destine verbas para desconstruir esse pensamento errôneo. Esses investimentos podem ocorrer por meio da promoção de palestras e debates em espaços públicos, como em praças e universidades públicas, por exemplo: USP e Unicamp, que promovam a reflexão sobre a relação entre a forma de se falar e a desigualdade social. Desse modo, o preconceito linguístico será superado.