Preconceito Linguístico
Enviada em 07/09/2020
“Dê-me um cigarro;/ diz a gramática;/ do professor e do aluno;/ e do mulato sabido;/ mas o bom negro e o bom branco;/ da nação brasileira;/ dizem todos os dias;/ deixe disso camarada;/ me da um cigarro”. No poema “Pronominais”, de Oswald de Andrade, é possível perceber a distância entre o idioma falado e o escrito e como ambas as variações devem ser abordadas de forma flexível. Entretanto, o que se observa na realidade é o oposto do que o poeta prega, uma vez que o preconceito linguístico desenvolve barreiras que dificultam as ideias do poema. Em síntese, esse cenário antagônico é fruto tanto de questões políticas-estruturais quanto da discriminação da sociedade.
Precipuamente, é fulcral pontuar que essa circunstância deriva da baixa atuação dos setores governamentais. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 12 milhões de pessoas com mais de 15 anos não sabem ler ou escrever. Logo, nota-se que devido a omissão do Governo vários brasileiros não fazem ideia do que são normas gramaticais, tão pouco se estão falando da maneira correta, o que acaba por deixá-los expostos, causando inferiorização e até mesmo dificuldades em se obter trabalho. Portanto, é inadmissível que no Brasil, País com altas taxas de imposto, não haja na mesma proporção, a aplicação de recursos para acabar com essa realidade nociva e segregacionista.
Ademais, é imperativo ressaltar a discriminação social como promotor do problema. Consoante Marcos Bagno - um dos principais estudiosos no assunto -, o preconceito linguístico surge porque a norma padrão tem como base a literatura consagrada dos séculos passados e ignora completamente os falantes de hoje em dia. Nesse sentido, como a língua é dinâmica ocorre um descompasso entre como se escreve e o modo que se fala, portanto, quanto mais a fala estiver longe da escrita maior será a discriminação. Logo, torna-se necessário refletir sobre a situação, assim como nos impactos nefastos e irreversíveis o preconceito ocasiona sobre todo o corpo social.
Em suma, faz-se imprescindível a tomada de medidas atenuantes ao entrave abordado. Para isso, com o intuito de mitigar o problema, necessita-se de que o Estado institua um maior aproveitamento dos investimentos voltados a educação e combate ao analfabetismo. Outrossim, o Ministério da Educação, deve realizar campanhas publicitárias televisionadas em escolas e universidades, por meio de entrevistas com especialistas no assunto. Além disso, tais debates devem ter como foco informar a população sobre as diferenças entre a fala e a escrita, e demonstrar o emprego da linguagem não-normativa, dentro dos mais diversos estilos musicais e literários. Enfim, só assim, o preconceito linguístico será gradativamente extinto e a sociedade caminhará para o progresso.