Preconceito Linguístico

Enviada em 11/09/2020

O Brasil é marcado pela formação de uma sociedade miscigenada, o que implica variações de comportamentos, costumes, dialetos etc. Nesse contexto, as diversificações dentro de um mesmo idioma devem ser aceitas, no entanto, o preconceito linguístico permanece moldando essa sociedade, estando este intimamente ligado aos demais preconceitos como, por exemplo, homofobia e racismo, de modo que os mesmos continuem crescendo. Além do mais, a existência de qualquer preconceito facilita a exclusão social e reforça a divisão de classes, consequentemente, a discriminação. Nesse ínterim, faz-se imprescindível a discussão ampla sobre tal tema a fim de reduzir este óbice social ainda tão presente em diversas sociedades.

Uma pesquisa realizada em 2017 pela SKOL em parceria com o IBOPE Inteligência revela que 7 a cada 10 brasileiros já foram preconceituosos. Dentre as discriminações a que prevalece é a homofobia (29%) e o preconceito racial (46%) ocupa o 2º lugar da lista. Isso significa que enquanto estas intolerâncias estão em “ativa” dão oportunidades para que “novas” formas de discriminações modelem os grupos sociais, daí surge a intolerância contra as variações linguísticas, característica fundamental para o desenvolvimento cultural, por isso há de se considerar a acentuação dos preconceitos relacionados ao de natureza linguística. Assim, elementos da cultura negra e expressões da comunidade LGBT, por exemplo, são repudiados e taxados como aversivos por parte da elite intelectual e demais cidadãos, é o caso do termo “macumba” ainda difundido como sinônimo de bruxaria, embora seu significado diga respeito a um instrumento de percussão, ou a criação do pajubá (dicionário formulado pela própria comunidade LGBT) que ainda encontra dificuldades para se inserir no cenário brasileiro. Além do mais, a exclusão social é propiciada devido ao preconceito socioeconômico e regional, posto que membros das classes menos abastadas, graças a limitação do acesso a educação, têm dominação da linguagem tida como informal, o que garante menos oportunidades de trabalho; e as  regiões consideradas os centros comerciais do Brasil (Sul e Sudeste) são as que mais manifestam hostilidade quanto aos sotaques das demais regiões, desenvolvendo estereótipos sobre as mesmas.

Assim, cabe ao Ministério de Educação garantir na grade escolar o princípio da adequação linguística, ou seja, adaptação da linguagem conforme a necessidade do momento (linguagem formal  versus coloquial) para que haja ensino adequado das variações linguísticas. É preciso ainda desmistificar mitos e preconceito quanto ao domínio da norma padrão, visto que isso não deve garantir ascensão social ou econômica.  E, por fim, é necessário admitir que a linguagem - bem como a escrita - estão sujeitas a mudanças, logo, não há maneira “correta|” de utilizá-las e todas devem ser respeitadas.