Preconceito Linguístico

Enviada em 09/09/2020

“A língua de que usam, por toda a costa, carece de três letras.” A observação do cronista português Pero de Magalhães Gândavo, feita em em 1576, sobre a ausência das letras F, L e R na língua mencionada, denuncia a repressão do falar português sobre o falar indígena durante o processo de colonização brasileira.  Nesse sentido, a construção do etnocentrismo inerente ao Brasil Colônia favoreceu um alto índice de preconceito linguístico no país atual, problema que, além de difundir a ideia equivocada de superioridade, corrobora o preconceito social e a discriminação.

Diante desse cenário, a teoria de Capital Cultural de Pierre Bordieu dialoga diretamente com a obra de Graciliano Ramos “Vidas Secas”, ao retratar a admiração de Fabiano  pelo fazendeiro Seu Tomás, pelo fato desse falar bonito. De maneira análoga, o autor francês Bordieu demonstra que são as características de uma pessoa - educação, intelecto, estilo de discurso etc- que lhe conferem “superioridade” ao adquirir uma posição vantajosa na sociedade. Logo, sustentar a concepção equivocada de que um indivíduo é superior a outro apenas por ser falante da norma culta e erudita é uma forma de conceder mais poder á elite e calar os grupos menos privilegiados.

Além disso, é importante notar que o preconceito linguístico é , sem dúvidas um mecanismo de completa marginalização e exclusão social que se encontra intimamente ligado às relações de dominação. Em seu livro, “Microfísica do Poder”, Michel Foucalt discute sobre os diferentes mecanismos de opressão e dominação e torna evidente a tamanha dinamicidade adquirida pelo poder que se ramifica em diversas esferas sociais .Nesse âmbito, no contexto brasileiro a seleção de uma única variante linguística como oficial faz com que a diversidade significativa seja , lamentavelmente, ignorada. Desse modo, os indivíduos que dominam a norma padrão são colocados em locais de prestígio, enquanto os falantes das demais variantes são discriminados e têm suas oportunidades reduzidas.

Portanto, para reverter o quadro problemático, é necessário uma tomada de medidas. Logo, é imperioso que o Ministério da Educação, já que possui importante papel na formação dos indivíduos, em parceria com as escolas, impeça que os professores perpetuem o preconceito linguístico, por meio da reformulação da matriz curricular, a qual será acrescentado o ensino das variantes linguísticas com o intuito de formar cidadãos tolerantes e inclusivos. Assim, a partir de uma formação docente adequada, o preconceito linguístico será atenuado e haverá ruptura com legados coloniais nefastos á igualdade  e á tolerância.