Preconceito Linguístico
Enviada em 11/09/2020
No livro “Casa-Grande e Senzala”, de Gilberto Freyre, observa-se que a formação do Brasil foi realizada por diversos extratos sociais, e inúmeras diferenças regionais, o que é de se esperar considerando as dimensões continentais do país e a miscigenação de povos, e culturas, que foi realizada. No entanto, apesar desse legado histórico rico e diversificado, na contemporaneidade brasileira uma das mazelas, que ainda persistem em existir, é o preconceito linguístico, que decorre não só por motivos sociais e regionais, mas também por inércia do poder público em combater esse tipo de comportamento.
Primeiramente, é indissociável a relação desse tipo de preconceito com o comportamento do brasileiro em relação ao diferente, fato observável no preconceito racial e étnico presente no país. Na obra do naturalismo brasileiro “O Cortiço”, de Aluísio Azevedo, é notório o quanto o meio social em que o indivíduo está imerso é capaz de moldar a sua perspectiva em relação ao mundo. Dessa forma, levando em conta um ambiente marcado pela discriminação como é o Brasil, é factível que esse comportamento ressoe nas diferentes formas de pronúncias e sotaques observados na população, tal atitude desconsidera o fato da língua não ser algo estático, imutável e inerte, pelo contrário, ela é consideravelmente maleável, o que se observa nas diferenças entre o Português falado em Portugal e o do Brasil, ou o Inglês Britânico e o Americano.
Outrossim, nessa temática é importante levar em consideração a falta de ação do poder público em enfrentar, e criminalizar, esse tipo de ação. A Constituição Federal de 1988 possui como um dos seus princípios fundamentais a erradicação da discriminação, seja ela de qualquer tipo. Destarte, essa falta de posicionamento estatal em defesa das variedades linguísticas presentes no Brasil é inconstitucional. É necessário, assim, que haja alguma resposta do Estado contra as pessoas que possuem esse preconceito.
Depreende-se, portanto, ser mister ações que mitiguem o preconceito linguístico no Brasil. Em primeiro lugar, o Ministério da Educação, aliado às Secretarias Estaduais de Educação, poderia promover palestras, aulas e debates em escolas públicas e privadas, com o objetivo de educar, desde a infância, como é normal a ocorrência dessas variedades da língua, e o quão danoso é ser preconceituoso em relação a isso. Ademais, o Congresso Nacional, com sanção da Presidência da República, promulgaria uma lei penal tipificando o preconceito linguístico no código penal, dando uma resposta direta do Estado contra quem prática preconceito linguístico. Com a implementação de tais medidas, o Brasil estará mais próximo de ser um país tolerante, aceitando as diversidades.