Preconceito Linguístico

Enviada em 12/09/2020

A comunicação, desde o surgimento do Homo Sapiens, exerce um papel indispensável à coesão social, uma vez que serve como sustentáculo para a realização das diversas atividades cotidianas. Não obstante sua relevância, observa-se, na atual conjuntura brasileira, um fenômeno conhecido como preconceito linguístico, o qual hierarquiza as variantes linguísticas. Nesse contexto, é necessário destacar que a inferiorização de determinadas formas de expressão contribuem para a segregação social, além de favorecer a padronização cultural.

Em primeira tese, é sólido ressaltar que, ao definir a norma culta como única variante aceita, aqueles que não possuem o domínio da gramática normativa são marginalizados e excluídos do protagonismo social, o que colabora para a não integração social e a permanência das mazelas na sociedade. Sob esse viés, vale salientar a obra Angústia, de Graciliano Ramos, na qual o personagem Luís Silva se sente desconfortável distante dos círculos sociais nos encontros com Julião Tavares - indivíduo que possui maior escolarização e, por conseguinte, expressa-se utilizado palavras rebuscadas e complexas.

Em segunda tese, é relevante analisar como o processo de globalização contribui para as discriminações o que tange à língua. O geógrafo Milton Santos, ao discorrer sobre a mundialização, define-a como perversa, dado que há a predominância da classe dominante sobre a dominada. Sob tal ótica, o modelo de globalização presente no Brasil expressa os desejos do setor populacional de maior escolaridade e que, por consequência, domina a norma padrão. Assim, há a supressão das variantes utilizadas por classes desfavorecidas. Dessa forma, ocorre a homogeneização cultural e reduz-se a diversidade linguística do Brasil, deslegitimando formas de se expressar.

É mister, portanto, atribuir a devida deferência à variedade linguística, uma vez que ela é fundamental para a manutenção da pluralidade cultural do país. O Ministério da Educação - órgão cuja incumbência é a de formar cidadãos - deve promover o debate sobre a importância das diversas formas de se expressar nas escolas, por meio do oferecimento de materiais didáticos e capacitação dos professores acerca da temática, com o objetivo de fomentar o respeito no que tange à comunicação e seus diferentes modos. Ademais, o Governo Federal deve realizar campanhas que promovam o entendimento da língua como dinâmica e complexa, não podendo, por isso, ser reduzida à um único aspecto. Dessa forma, o respeito às diferentes linguagens e dialetos se fará presente, e a coesão social estabelecer-se-á na sociedade brasileira.