Preconceito Linguístico

Enviada em 13/09/2020

Na obra “Vidas secas” de Graciliano Ramos, o autor relata a história de uma família pobre no sertão nordestino. Além das dificuldades com a seca e a fome, o personagem Fabiano é frequentemente enganado por seu patrão, mas se julga incapaz de protestar ao se sentir inferior por não dominar a língua padrão e não se expressar de forma coesa. Semelhantemente no Brasil contemporâneo, o preconceito linguístico mostra-se intrinsecamente ligado à discriminação socioeconômica, dado que a desigualdade social estrutural do país perpetua simbologias de poder, fazendo-se necessário, portanto, uma análise minuciosa sobre o tema.

Primeiramente, é importante destacar que com a industrialização tardia ocorrida no Brasil, as atividades culturais e econômicas se encontraram monopolizadas nos grandes centros urbanos ricos nas mãos de uma elite. As vítimas, por sua vez, se encontram normalmente em regiões distantes consideradas atrasadas e sem riqueza, sendo que segundo o filólogo Marcos Bagno, essas elites utilizam a linguagem como uma forma de dominação com as classes mais pobres e regionalizadas, visto que o desconhecimento da norma-padrão, representam um baixo nível de qualificação profissional e, portanto, são oprimidas mantendo a divisão de classes no Brasil.

Por conseguinte, essa desigualdade estrutural e a monopolização se manifesta no pensamento e discurso de muitos brasileiros que acabam perpetuando simbologias de poder, que segundo a teoria de Pierre Bordeau, no qual afirma que as minúcias de um indivíduo constituem em simbologias que são constantemente analisadas pelo corpo social, isto é, a população dessas regiões afastadas e pobres como o nordeste, norte e centro-oeste, são rotuladas por expressões como “Nordestinos analfabetos” e “Goianos caipira” se evidenciando, desse modo, a desigualdade social atrelada ao preconceito linguístico.

Em suma, tendo em vista o que foi discutido, é necessário que o ministério da educação invista, por meio de verbas, através das escolas e universidades, em  discussões com a participação da sociedade na propagação do princípio da adequação linguística, a qual significa não existir “certo” ou “errado” na variedade linguística, mas sim, se faz determinada pelo contexto em que a conversa se manifesta. Ademais, cabe ao ministério da infraestrutura em investir por meio de verbas governamentais, em incentivos a industrialização nas regiões afastadas, ocorrendo a decentralização das atividades econômicas e culturais, diminuindo a desigualdade entre as classes e, consequentemente, a opressão sobre as classes baixas, pois somente assim podemos acabar com o preconceito linguístico e romper com os problemas sociais brasileiros relatados por Graciliano em “Vidas secas”.