Preconceito Linguístico
Enviada em 13/09/2020
O pesquisador Yuval Harari, em seu livro “Sapiens”, afirma que o desenvolvimento da linguagem foi fundamental para o processo de consolidação da espécie humana no planeta. Diante disso, a linguagem foi cada vez mais aprimorada e sistematizada na tentativa de cumprir a sua função, porém tal avanço passou a se tornar uma barreira, criando um preconceito linguístico contra aqueles que não dominavam o padrão estabelecido. Nesse sentido, o problema é causado pela burocratização da sociedade que tem como consequência o esquecimento da finalidade da comunicação.
Em primeiro lugar, evidencia-se o processo de burocratização como a principal causa do preconceito linguístico. Isso porque, na visão do sociólogo Max Weber, um traço marcante da nossa sociedade é o apego ao aspecto formal por meio da racionalização, o que na linguagem é expressado pela ideia de um sistema perfeito, para não existir erros de comunicação. Apesar da necessidade de precisão, esse processo vai em desencontro com uma realidade fática de mudança, pois a língua, ferramenta por excelência, sofre modificações no tempo e no espaço para suprir as necessidades dos falantes. Sendo assim, é inaceitável que esse rito de interação entre os humanos seja vista de forma tão rígida ao ponto de criar o estigma social aos que não dominam plenamente sua técnica.
Igualmente relevante, é importante mencionar a consequência da burocratização da comunicação, que é o esquecimento da sua finalidade. Tal processo afasta os usuários dessa importante interação social, pois acabam entendendo que a forma deles é incorreta e portanto inferior, o que não é verdade. Essa normatização está presente na obra “O Guia do Mochileiro das Galáxias” de Douglas Adams, onde um grupo da trama não considera o que é feito fora da forma padrão como válido, o que demonstra uma convergência com a atual forma que alguns tratam a questão fora do clássico de ficção científica. Em suma, quando os falantes perdem a noção da importância e motivo da linguagem ela é descaracterizada, se transformando em um recurso excludente gerador de mais desigualdades.
Imprescindível, portanto, que medidas sejam tomadas para sanar o preconceito linguístico. Nessa lógica, deve o Governo Federal, por meio do Ministério da Educação, criar um programa de enfrentamento. Tal iniciativa tem como finalidade conscientizar os utilizadores da língua, por meio de campanhas publicitárias e ações de campo, que a segregação daqueles que não dominam a norma culta não é o correto e assim tentar recuperar a primazia da finalidade da comunicação, demonstrando que diferenças são esperadas e que não atrapalham a interação social. Somente assim será possível recuperar a língua como ferramenta e afastar o rigor formal que causa o preconceito e a exclusão social dessas pessoas.