Preconceito Linguístico
Enviada em 14/09/2020
Durante a Primeira Geração Modernista, inaugurada em 1922, os escritores brasileiros objetivavam romper com o elitismo presente na escola literária parnasiana, propondo a utilização da linguagem popular em seus textos. Na atualidade, é fato que a valorização das variedades linguísticas, proposta pelos autores do modernismo, ainda é um desafio no país, haja vista o preconceito com os falares que destoam da norma culta, o que fere a dignidade dos indivíduos e prejudica a cidadania. Tal panorama decorre da desigualdade social e contribui para a marginalização e exclusão dos indivíduos.
Em primeiro plano, cabe pontuar que o preconceito linguístico é consequência da supervalorização da gramática normativa em detrimento das variedades linguísticas de menor prestígio social. A esse respeito, o professor e linguista brasileiro Marcos Bagno afirma que o desrespeito às variáveis da língua portuguesa deriva da repressão, imposta por uma elite socioeconômica e intelectual, contra tudo que difere da “norma padrão”, desconsiderando a adequação da linguagem aos diversos contextos. Assim, noções de correção, que se aplicam apenas à linguagem escrita, são aplicadas também na linguagem falada, o que contribui para o constrangimento das camadas sociais vulneráveis, que têm sua identidade cultural desrespeitada, ferindo a cidadania.
Além disso, vale ressaltar que a linguagem é usada como repressão das camadas menos abastadas da sociedade, que são marginalizadas e excluídas de diversos ambientes por desconhece-rem a gramática normativa. Sob esse viés, o sociólogo Pierre Bourdieu afirma, em seus estudos acerca do Capital Cultural e da Violência Simbólica, que os conhecimentos da elite são impostos ao corpo social, perpetuando a ideologia dominante. Nesse sentido, a valorização da norma culta da língua portuguesa é usada para reprimir os grupos que não são familiarizados com essa variação linguística. Dessa forma, falantes de dialetos, indígenas e nordestinos são marginalizados diante dos julgamentos acerca de sua linguagem, o que contribui para a lenta extinção das variáveis linguísticas.
Diante do exposto, é necessário combater o preconceito linguístico a fim de garantir a dignidade e cidadania dos brasileiros. Para tanto, cabe ao Ministério da Educação, no exercício de seu papel socializador, informar os estudantes e a comunidade acerca das variedades linguísticas, com o objetivo de desconstruir o preconceito e a repressão direcionados às camadas vulneráveis. Isso será feito por meio de disciplinas obrigatórias e projetos sociais, ministrados por letrados e linguistas, que devem abordar as adequações da linguagem verbal aos diferentes contextos sociais. Com efeito, a valorização da linguagem popular, proposta pelo Modernismo, será efetivada no Brasil, permitindo o bem-estar social pleno.