Preconceito Linguístico

Enviada em 14/09/2020

A determinação do “português” como idioma da antiga ilha de Vera Cruz, no século XV, elucida de forma clara a construção impositora da língua no território nacional, uma vez que os indígenas tiveram que adaptar-se ao léxico da minoria europeia para sobreviver. Analogamente, em tempos hodiernos, o vocábulo continue sendo um meio de segregação ou inclusão, dependendo do ambiente. Nesse sentido, seja pelo caráter elitizado do conhecimento ou pelo amplo desejo humano de sentir-se superior ao diferente, o preconceito linguístico inferioriza diversos cidadãos e carece de cuidados.

Previamente, é necessário salientar o cunho elitista do ensino brasileiro e, consequentemente, da norma linguística na sociedade. De acordo como filósofo Pierre Bourdieu, a educação caracteriza-se como um sistema de reprodução das disparidades socioeconômicas. Dessa forma, indivíduos vulnerabilizados sequer tem acesso à gramática normativa, ou pela precariedade das instituições públicas, ou pela necessidade de trabalho prematuro. Assim, a língua culta restringe-se aos mais favorecidos, que muitas vezes utilizam-se desse artifício para humilhar os menos abastados. Desse modo, verifica-se que o lecionamento é o principal meio de alterar o estigma, principalmente pela democratização educacional.

Ademais, a falácia de inferioridade cultural contribui para a proliferação do pré-conceito. Da mesma forma que a fala portuguesa foi perpetuada no Brasil por julgarem-a superior às línguas nativas, diversas regiões territoriais tem semelhante comportamento xenofóbico com as demais. Prova disso é o embate de sulistas, cariocas e paulistas com o sotaque nordestino. Entretanto, segundo o educador Paulo Freire, “se a educação sozinha não transforma a sociedade, tampouco sem ela a sociedade muda”. Logo, promover a conscientização social é mister para evitar a ridicularização léxica.

Portanto, ações são necessárias para prevenir a manutenção das disparidades pela língua. Sob essa ótica, a ampliação da qualidade instrucional dos níveis fundamentais e médios, bem como o aumento de aulas escolares noturnas para os civis trabalhadores, por intermédio da retirada da emenda constitucional 274 (Que congela gastos em educação por mais 21 anos) e o maior destino de recursos ao Ministério da Educação, pelo poder executivo federal, é essencial a fim de precarizar a dominação pela língua. Além disso, a divulgação de propagandas publicitárias conscientizadoras sobre a importância do respeito aos demais vocábulos, mediante parcerias publico-privadas entre o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações e empresas de telecomunicação, é imperioso no intuito de extinguir o uso egocêntrico do conhecimento. Apenas assim amenizaremos um erro da colonização que persiste até os dias atuais.