Preconceito Linguístico

Enviada em 15/09/2020

O diário de Helena revela que Dona Teodora possui grande admiração pela escrita de sua neta, solicitando que a mesma sempre leia para ela, pois julgava que os textos de Helena possuem uma linguagem mais bela que sua própria maneira de falar. Esse relato, presente na biografia “Minha vida de menina” de Alice Brant, revela a crença dos brasileiros que a única forma adequada e bela de comunicação ocorre apenas com o uso da linguagem culta. Infelizmente, esse fenômeno gera o preconceito linguístico e é preciso que o brasileiro compreenda que as variantes linguísticas são frutos sociais e seu uso um ato político.

A priori, a língua portuguesa é viva e acompanha as mudanças sofridas pela sociedade. O seu uso é diário, e alguns fatores como idade, desigualdade social, qualidade da educação, vivências e oportunidades interferem no uso da língua portuguesa. É possível notar isso no modo que Carolina de Jesus escreveu em seu livro “Quarto de despejo”, com sua variante linguística ela fez um grande ato político. O fato ser mais uma vítima da desigualdade social, vivendo à margem da sociedade e com pouca oportunidade de uma educação de qualidade provou que com sua variante linguística é possível ser compreendida e que isso não interfere na relevância de seu discurso.

Além disso, as apresentações das diversidades linguísticas são superficiais e caricatas, silenciando histórias. A ignorância e desinteresse pelas variações linguísticas criou um ideal de superioridade ao falantes cultos, que ao entrar em contato com variantes linguísticos reais, diferente das que são apresentadas pela mídia e pelos livros didáticos, causa repulsa, estranhamento e preconceito. Apesar da lei brasileira garantir a liberdade de expressão a todos, o preconceito linguístico censura o modo de se expressar, calando muitos falantes. É possível observar a censura por meio do silenciamento de indivíduos como os indígenas, nordestinos, imigrantes e pessoas que vivem no campo.  Por essa razão, o preconceito linguístico é uma realidade cada vez mais frequente, uma vez que os a maioria dos brasileiros são analfabetos linguísticos e estão inclusos em bolhas gramaticais.

Diante dos fatos expostos, é possível reconhecer que o preconceito às variantes linguísticas prejudica a sociedade brasileira. Para mudar essa realidade, cabe ao Ministério da Educação, em conjunto com a mídia, divulgar obras com linguísticas diversas e conectar os brasileiros via internet para conhecerem as variantes linguísticas que existem no território nacional. Essa conexão tornaria realidade aprender com a diversidade, uma vez que o contato possibilitaria conhecer as riquezas -política, social e histórica- que existem nas diversidades linguísticas e nas realidades brasileiras. Dessa maneira, a avó de Helena poderia perceber que sua linguística é tão bela quanto a que a neta utiliza para escrever.