Preconceito Linguístico

Enviada em 16/09/2020

A obsessão pelo uso culto da língua é uma herança do Parnasianismo, movimento literário que, por meio do princípio da “arte pela arte”, instituiu a busca pela perfeição formal com emprego de linguagem clássica, refinada e rebuscada. Desde então, mesmo com o surgimento do Modernismo e sua tentativa de se aproximar da fala coloquial, o preconceito linguístico é uma realidade no Brasil. Dentre as variedades da língua estipuladas pela Sociolinguística, a variação regional e a variação social são as que mais sofrem esse tipo de discriminação. Dessa forma, a comunicação, real função da linguagem, perde importância em nome das intolerâncias que revestem a busca pelo intelectualismo.

Nesse contexto, em relação à variante regional, o preconceito é produto das diferenças linguísticas, marcadas pelo sotaque, dos falantes de cada região do Brasil. As regiões Nordeste e Centro Oeste são as que mais registram casos de discriminação da língua vindos das regiões Sul e Sudeste, como ocorreu com a Miss Brasil Melissa Gurgel, que sofreu ataques de paulistas devido ao seu sotaque cearense. Além disso, segundo um estudo da Universidade de Chicago, a pronúncia influencia cerca de 20% na contratação de um trabalhador, por isso não é tão comum ver o sotaque nordestino ou caipira no jornalismo e no entretenimento nacional. Assim, surge a ideia de superioridade de algumas regiões sobre as outras, o que desvaloriza e ridiculariza certas maneiras de se comunicar.

Ademais, em relação à variante social, o preconceito se manifesta contra os falantes de baixa escolaridade. É sabido por todos que o Brasil não possui um sistema educacional igualitário, dessa maneira, apenas alguns têm a oportunidade de buscar o intelectualismo, enquanto outros se contentam com um vocabulário de pouca sintaxe, com supressão de fonemas e excesso de gírias. Essa desigualdade social, abre margem para a intolerância que vem dos intelectuais e afeta os mais humildes, como no caso do médico paulista que debochou na internet de seu paciente que não sabia falar corretamente as palavras “pneumonia” e “raio x”. Assim, a comunicação, verdadeira finalidade da língua, perde lugar para as intransigências do mundo erudito.

Portanto, fica evidente que o preconceito linguístico é marcante no Brasil. Diante disso, o Ministério da Educação deve criar um estudo obrigatório sobre a Sociolinguística e as variedades da língua desde o primário, por meio de aulas, debates e palestras, com estímulo do contato entre os diferentes sotaques e níveis de escolaridade, a fim de evitar que haja discriminação regional e social. Por fim, o Poder Legislativo deve tipificar o preconceito linguístico como um crime, por meio da criação de leis e de penalidades específicas, a fim de impedir a recorrência desse tipo de intolerância. Só assim, o preconceito linguístico será barrado e a comunicação será realmente a principal função da linguagem.