Preconceito Linguístico

Enviada em 15/09/2020

Preconceito linguístico consiste em julgar um cidadão pela maneira como ele se comunica - oralmente ou por escrito - e é baseado na norma culta, de modo que quanto mais diferente dela, mais criticado é o falante. Entretanto, tal embasamento é errôneo, pois, “para as ciências da linguagem não existe erro na língua”, como afirma Marcos Bagno - doutor em filologia. Sendo assim, o preconceito linguístico é uma discriminação social baseada no capital das classes e é, involuntariamente, produzido pelo sistema de educação que perpetua a categorização da gramática normativa como a correta, em detrimento das demais variações da língua portuguesa, portanto urge uma mudança na diretriz escolar.

É imperativo abordar, em um primeiro momento, a relação entre preconceito linguístico e a discriminação de classes, bem como o papel da escola nessa conjuntura. As instituições de ensino representam um processo disciplinador do indivíduo para o mercado de trabalho, e para isso fazem o uso restrito da norma culta, classificando a gramática como o único padrão correto e não como mais uma variante linguística. Então, se for considerado que no Brasil a educação e a renda familiar estão profundamente interligadas, a intolerância à multiplicidade de padrões comunicativos é de cunho social, uma vez que o acesso a norma culta é restrito - pois é um privilégio financeiro - e produz a falsa convicção de superioridade por parte de quem a usa.

Sob esse viés, a intolerância com as pluralidades expressivas do idioma faz com que o imaginário popular assimile algumas dessas variedades à inferioridade de saber do interlocutor. Essa associação é hostil e equivocada, o que pode ser comprovado com o livro “Quarto de Despejo” - por Carolina Maria de Jesus. Nessa obra, os editores optaram por manter a escrita original da autora, que frequentou por apenas dois anos a escola. Apesar de incompatível com a norma culta, Carolina foi clara, contundente e demonstrou grande capacidade crítica. Ou seja, o poder intelectual das pessoas não se associa ao seu modo de falar ou escrever, e sim a habilidade de expressar suas idéias de maneira eficiente.

Diante do exposto, conclui-se que a categorização da gramática normativa como a exclusiva expressão adequada do idioma é um ato repressivo que fundamenta, sem intenção, a discriminação linguística. Logo, para que se finde o problema abordado, cabe ao Ministério da Educação prover cursos destinados aos professores de Língua Portuguesa, para que ocorra a democratização do saber em sala de aula através da orientação de continuidade do ensino da norma culta, juntamente com a inclusão do respeito e valorização das variedades regionais e sociais, de modo que essa alteração na diretriz do ensino erradique o sustentáculo do preconceito. Com tal mudança, melhorias serão concebidas com êxito.