Preconceito Linguístico

Enviada em 15/09/2020

Em “Ensaio sobre a cegueira”, obra ficcional do escritor José Saramago, observa-se uma epidemia de perda de visão em determinada comunidade. A incapacidade de enxergar pode ser depreendida como um retrato metafórico perante os problemas da realidade. É possível relacionar essa “cegueira”, por exemplo, diante do preconceito linguístico. Por esse prisma, cabe analisar os aspectos políticos e sociais que envolvem essa questão no Brasil.

Inicialmente, analisa-se que o Poder Público se apresenta omisso ao permitir a discriminação linguística. Isso porque há uma deficiência no processo educacional brasileiro, uma vez que as escolas regulares ainda impõem a norma padrão da língua portuguesa como a única forma válida de comunicação, não levando em consideração que a língua faz parte de uma construção sociocultural, o que acaba por constranger e excluir os falantes das diversas variantes, como a regional. Sendo assim, vê-se que o governo não tem garantido o bem-estar de toda a coletividade, o que demonstra a ruptura dos preceitos estabelecidos na Constituição Federal.

Outrossim, constata-se que a intolerância linguística é uma representação das concepções enraizadas na sociedade. Sabe-se, pois, que, ao longo do tempo, há uma tendência de romantizar a forma caricata e exagerada como a mídia retrata, através de novelas e filmes, a fala de alguns grupos sociais, como nordestinos, gays e pessoas da comunidade, desconsiderando, porém, que essa representação ridiculariza os indivíduos que estão inseridos nesses determinados grupos. Essa problemática pode ser elucidada com base com estudos propostos por Friedrich Nietzsche, posto que, segundo ele, a desinformação faz com que as pessoas criem opiniões deturpadas sobre a realidade.

Convém, portanto, ressaltar que o preconceito linguístico deve ser superado. Para isso, é necessário que a população exija do Estado, por meio de debates em audiências públicas, um alteração na forma como a linguística é tratada nas escolas, a fim de que esse tema seja abordado de forma respeitosa e dentro da realidade dos alunos. Ademais, é fundamental haver conscientização da sociedade, através de campanhas midiáticas promovidas pelo Ministério da Cidadania, sobre a importância das variantes linguísticas para a manutenção da identidade, com o objetivo de que reconheçam a visão limitada que têm sobre a fala de determinados grupos, para, em seguida, desconstruí-la. Dessa forma a “cegueira” poderia ficar restrita à obra de Saramago.