Preconceito Linguístico

Enviada em 15/09/2020

Durante o processo de colonização do Brasil por Portugal, instalou-se uma dinâmica de dominação dos europeus sobre os povos indígenas locais e os africanos trazidos para trabalho escravo. Além da óbvia opressão econômica e social, essas populações sofreram também com o sufocamento de suas expressões culturais, sendo forçadas a adotar os modos de viver, e sobretudo, a língua de seus colonizadores. O exposto relaciona-se com a contemporaneidade brasileira, visto que as relações de poder existentes entre as três etnias formadoras do país são análogas às que existem hoje entre classes sociais ou mesmo entre diferentes regiões do território nacional, em que certos sotaques ou modos de falar são tidos como corretos ou elitizados, e exercem dominância sobre outros, o que acarreta em culturas inteiras sendo menosprezadas e subjulgadas.

Em primeiro lugar, é evidente que o “falar correto” está intimamente relacionado, no imaginário popular brasileiro, com seguir a norma culta. Essa, entrentanto, representa apenas uma pequena fração do que é a língua portuguesa, além de não ser acessível para toda a população do país, sobretudo a de menor escolarização. O conceito de Capital Cultural do sociólogo francês Pierre Bourdieu, afirma que a cultura, em uma sociedade desigual, acaba por tornar-se um meio de diferenciação entre as classes sociais, sendo usada pela elite para exercer poder sobre as classes dominadas. Assim, falantes que não possuem domínio pleno das regras gramaticais encontram dificuldades em ter seu modo de pensar ouvido, e sua cultura respeitada.

Além disso, mais um aspecto da linguagem, o sotaque, é usado como forma de poder de um grupo sobre outro, dessa vez explicitado por outra tese de Bourdieu, a do Arbitrário Cultural Dominante. Nessa, o sociólogo afirma que as expressões culturais características da elite são socialmente colocadas como corretas, superiores e o modelo a ser seguido pelas classes mais baixas, buscando a hegemonização do pensar. Esse fenômeno é observado pelo monopólio midiático da região Sudeste, que coloca o falar local como correto, enquanto ridiculariza o do Nordeste , por exemplo.

Assim, é mister que o Estado tome medidas para amenizar a situação. Para impedir que falantes da língua portuguesa sejam calados por conta da variedade linguística que empregam, cabe ao Ministério de Educação e Cultura (MEC), por meio de alteração na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), tornar mandatório que o tema do preconceito linguístico seja discutido em todas as etapas da educação básica, do ensino fundamental ao médio. Somente assim o Brasil poderá superar os mecanismos coloniais de opressão cultural, tendo todos os seus cidadãos ouvidos independente da maneira como se expressam.