Preconceito Linguístico
Enviada em 16/09/2020
Na obra “Jeca Tatu”, de Monteiro Lobato, o protagonista que dá nome ao livro é uma construção caricata do homem campesino, representação do atraso que convencionou-se associar ao falar caipira. Semelhante à ficção, é perceptível, ainda na atualidade, a mazela do preconceito linguístico, sustentado pela ignorância acerca da riqueza dos dialetos e registros nacionais, bem como o caráter segregacionista da norma culta da Língua portuguesa, que pressupõe a inferioridade das variações linguísticas presentes em toda extensão do Brasil.
A priori, é relevante evidenciar, primeiramente que, no século XVI, junto aos colonizadores lusitanos, chegou ao Brasil o padre José de Anchieta, o qual, visando converter os indígenas à fé cristã, estudou o Tupi-guarani a fim de misturar as distintas línguas e, dessa forma, facilitar a compreensão dos nativos. Dessa forma, pode-se concluir que há abundância não só de variações geográficas, mas também de diferenciações diastráticas na língua portuguesa, haja vista que a interação entre os diversos grupos sociais promoveu a ampliação do léxico brasileiro. Contudo, a elite brasileira, extremamente classista, tenta apagar, intencionalmente, as heranças históricas e biográficas do linguajar brasileiro, corroborando para a manutenção da intolerância linguística no país.
Em segundo plano, cabe destacar o caráter fluído e mutável do falar, sobre o qual há desconhecimento e, consequentemente, pouco interesse, o que fomenta atitudes discriminatórias. A língua, de fato, está ligada à estrutura e aos valores construídos pela sociedade. Nesse sentido, no atual corpo social, competitivo tanto no âmbito laboral, quanto no social, as classes mais escolarizadas utilizam o conhecimento da gramática normativa como instrumento de distinção da parcela da população menos culta. Com isso, o cenário preconceituoso hodierno torna-se tóxico aos indivíduos com menor grau de escolaridade, ocasionando, assim, a segregação social - evidenciada como uma característica da nação brasileira, pelo autor Sérgio Buarque de Holanda, no livro “Raízes do Brasil”.
Infere-se, portanto, que providências sejam tomadas para solucionar esse imbróglio. Para isso, cabe às universidades e escolas, enquanto formadoras cidadãs, promover e expandir tais discussões. Para tanto, devem ser introduzidos, no currículo da disciplina de Língua Portuguesa, planejamentos voltados para o estudo mais aprofundado da variabilidade linguística, bem como oficinas de leitura e encenação de manifestações artísticas regionais. Concomitantemente, a Antropologia deve colaborar por meio de explicações e debates acerca da notável formação cultural brasileira, com o fito de destacar importância e o respeito das variantes linguísticas para nossa identidade. Somente assim será tangível, pelo saber, dissipar os pressupostos enraizados que marginalizam e rotulam inúmeros “Jecas” na atualidade.