Preconceito Linguístico
Enviada em 16/09/2020
Uma breve reflexão sobre o poema “Pronominais”, do escritor moderno Oswald de Andrade, é capaz de revelar o contraste presente no emprego da língua portuguesa. Nesse viés, uma ditadura linguística perpetua no Brasil contemporâneo e, majoritariamente, correlaciona-se com o preconceito socioeconômico mascarado pela intolerância à expressão coloquial e com a discriminação de cunho xenofóbico concernente à variação regional da fala.
A princípio, na obra “Preconceito Linguístico”, de Marcos Bagno, evidencia-se a construção de um crítico padrão imposto por uma elite econômica e intelectual. Exemplifica-se, pois, o repugnante caso, ocorrido em 2016, em que um médico paulista debochou da maneira de pronúncia das palavras “pneumonia” e “raio X”, por um paciente, em suas redes sociais. Nessa perspectiva, tal conduta equivocada constitui um golpe à dignidade cidadã e, lamentavelmente, caracteriza uma Violência Simbólica, postulada por Pierre Bourdieu - embora não atue por meio de forças físicas, coage em forma de desmoralização e de humilhação individual.
Ademais, o estudo do Fato Social - proposto por Émile Durkheim - aponta a conexão de influência entre o homem e o meio em que se vive. Nesse enfoque, uma concisa analogia com o passado externa o domínio colonial ao impor o uso da comunicação lusitana aos indígenas e africanos e, atualmente, nota-se a predominante arbitrariedade das regiões brasileiras em vantagem econômica ao depreciar as variantes geográficas da linguagem nacional - como os discursos de ódio concernentes ao sotaque nordestino. Posto isso, tal fato caracteriza uma tentativa de extermínio da língua portuguesa, uma vez que o desrespeito às suas diversidades importuna a sua construção histórica e, consequentemente, o seu reconhecimento social.
Frente as obstáculos abordados, urgem, por conseguinte, medidas resolutivas e socialmente responsáveis para abrandar a problemática. Nesse prisma, é indispensável o papel do Ministério da Educação na criação de um projeto de Valorização dos Díspares Traços Linguísticos Brasileiros. Tal programa, por sua vez, deverá atuar no âmbito escolar e profissional, com o apoio de psicólogos e professores na apresentação de palavras informais ou pertencentes à outros grupos e no esclarecimento dos malefícios gerados pelo preconceito linguístico, a fim de propiciar o indispensável respeito às formas comunicativas e os contextos econômicos ou culturais envolvidos. Dessarte, a nação caminhará em prol de uma sociedade mais justa e tolerante.