Preconceito Linguístico
Enviada em 15/09/2020
Em 1985, João Cabral de Melo Neto escreveu a obra ‘Morte e vida severina’ e objetivou promover a valorização dos falares regionais e sociais marginalizados na sociedade da época. Entretanto, mesmo depois de décadas, o objetivo do escritor modernista ainda se mostra distante, na medida em que o preconceito linguístico se perpetua e representa grave problema a ser, urgentemente, desconstruído pelos cidadãos e pelo Estado.
Em primeiro plano, o assédio linguístico fragiliza a dignidade humana das vítimas. A esse respeito, em 1948, a ONU estabeleceu que o principal direito de um indivíduo é a sua dignidade, prevista na Declaração Universal dos Direitos Humanos. Ocorre que os frequentes discursos de ódio acerca das variantes linguísticas consideradas de baixo prestígio vai de encontro com o que as Nações Unidas declaram como indispensável. Assim, é incoerente que, mesmo sendo multicultural, o Brasil ainda mantenha vivo o preconceito linguístico.
De outra parte, persistem os estereótipos acerca das variantes negligenciadas socialmente. Nesse contexto, o filósofo Mikhail Bakhtin ensina, em sua obra ’ Carnavalização da sociedade’, que o risco é capaz de desconstruir um grupo marginalizado e reafirmar o preconceito. Esse problema assume contornos específicos no Brasil, uma vez que mídia costuma atribuir caráter lúdico aos falares sociais e regionais de baixo prestígio -sobretudo nordestinos- , o que colabora para a opressão da linguagem e manifesta na prática a carnavalização de Bakhtin. Dessa forma, enquanto os estereótipos se mantiverem, o país será obrigado a conviver com um dos mais graves problemas para o Estado Democrático de Direito: a exclusão linguística.
Impede, pois, que indivíduos e instituições públicas cooperem para mitigar a intolerância linguística. Nesse sentido, os cidadãos devem repudiar a inferiorização das variantes consideradas de baixo prestígio, por meio de debates nas mídias sociais capazes de combater, com urgência, a prevalência de uma variação sobra as demais, a fim de desconstruir estereótipos. O Ministério Público, por sua vez, pode promover denúncias contra atitudes que menosprezem os registros da linguagem de grupos historicamente excluídos, por intermédio de ações judiciais avaliadas com prioridades, como deveria ocorrer com todas a formas de discriminação. A iniciática do Ministério Público teria a finalidade de estimular, no século XXI, a valorização linguística proposta por João Cabral de Melo Neto.