Preconceito Linguístico

Enviada em 16/09/2020

O fenômeno da linguagem é composto por uma série de mitos e de preconceitos que povoam a sociedade, os quais trazem à tona indícios do que seria uma opressão social. Nesse sentido, casos como o do médico Guilherme Capel, em Serra Negra- SP, que, ao publicar uma foto exibindo o receituário com o seguinte dizer: “Não existe peleumonia e nem raôxis”, em referência à fala de um paciente, têm sido cada vez mais comuns. Dessa forma, é evidente que o preconceito linguístico representa o conflito entre as classes no Brasil e, aquelas menos favorecidas, têm suas variantes estigmatizadas. Assim, é necessário discutir esse cenário de desrespeito à diversidade da fala no País.

Em primeiro lugar, vale ressaltar que desde a Colonização do Brasil, a repressão à fala nativa e à africana foram usadas como um dos instrumentos de dominação do “homem civilizado”. Desse modo, segundo o filósofo Pierre Bourdieu a violência simbólica é uma forma de coação que se apoia no reconhecimento de uma imposição determinada. Por conseguinte, é corriqueira a representação ridicularizadora, em filmes e novelas, por exemplo, do indivíduo que vem do Nordeste e que fala “errado”, com um sotaque “feio”, como acontece no filme “Que Horas Ela Volta?”, que retrata conflitos que acontecem entre uma empregada e seus patrões de classe alta, os quais frequentemente fazem comentários preconceituosos sobre o jeito de falar da empregada e de sua filha.

Em segundo lugar, a língua pode ser um fator extremamente importante na identificação de grupos, como também uma maneira de manter as diferenças sociais de uma comunidade. De acordo com o renomado linguista Marcos Bagno, não existe uma língua certa ou errada, existem maneiras adequadas ou inadequadas de falar, dependendo do contexto. Ademais, é nítido que aqueles que se dizem cultos e falantes corretos da língua, deveriam estudar não somente gramática normativa, mas também sociologia, pois deveriam compreender melhor a função da língua, a qual vai além de convenções.

Em suma, faz-se necessário combater o “conteudismo” da norma culta, que pode ser uma forma de constrangimento. Para isso, a mídia pode contribuir na melhoria desse cenário repleto de preconceitos, ao fazer programas que informem sobre a variação linguística e sobre a riqueza da fala das regiões de todo o Brasil e como isso forma a identidade nacional, para que episódios como o do médico que zombou de um paciente que falava “errado, na percepção dele, não ocorram em pleno século XXI.