Preconceito Linguístico
Enviada em 16/09/2020
A Semana da Arte Moderna, de 1922, tinha como um de seus principais objetivos, a incorporação da linguagem coloquial nas obras artísticas, para que dessa maneira surgisse uma arte moderna comprometida com a cultura brasileira e suas origens diversificadas. O poeta Mário de Andrade foi um grande exemplo disso na obra Macunaíma: através de suas referências ao folclore nacional criticou os conservadores preconceituosos que se recusavam a assumir as verdadeiras raízes do país, desprezando sua identidade. Após quase um século dessa revolução artística, se observa que a conjuntura brasileira dos dias hodiernos ainda não superou esses ideais arcaicos, ultrapassados e xenofóbicos, uma vez que vivencia-se a ascensão do preconceito linguístico dentro do próprio país.
Antes de tudo, faz-se mister ratificar o pensamento da filósofa Hannah Arendt, que fala sobre o homem, ao não compartilhar e respeitar a cultura que o cerca, acaba com a sua humanidade esquecida, tornando-se um animal. Seguindo essa linha de raciocínio, é de suma importância que, enquanto um país de proporções continentais como o Brasil e com sua densa camada heterogênea de valores identitários de cada uma de suas cinco regiões, saibamos valorizar e respeitar a pluralidade de línguas, expressões, gírias e tradições que possuímos enquanto seres humanos conterrâneos.
Outrossim, o fato de haver xenofobia entre brasileiros de diferentes localidades do país denota a desigualdade social nacional, cujas estruturas estão baseadas no poder da economia de determinada região, exaltando a sua tradição em detrimento daquela que não compartilha dos mesmos costumes, e justificando tais atos intolerantes com a primazia do número, dando a falsa ideia de que o número tem haver com a verdade, logo, a maioria sempre está certa e quem é diferente não é digno de respeito. Ademais, a falta de uma concessão de subterfúgios para fiscalização e regulamentação dos crimes xenofóbicos entre brasileiros acaba tornando os atos preconceituosos normais e banais, já que quem os pratica raramente é punido pela lei, e, mesmo sendo um crime de ódio previsto pela Constituição Federal que condena a reclusão do indivíduo, não é tratado com seriedade nem pelo próprio Estado.
Assim, percebe-se a necessidade de esforços sociais para solucionar a problemática. A fim de extinguir de uma vez por todas o preconceito linguístico, é imprescindível que a Polícia Federal, através de verbas governamentais, amplie o policiamento desse crimes de ódio, por meio de buscas digitais de mensagens e publicações nas redes sociais que firam a lei e os direitos humanos, para que os autores sejam devidamente responsabilizados pelos seus atos. Além disso, é imperioso que as instituições midiáticas informem o povo da exuberância da nossa língua portuguesa, trazendo comerciais animados com obras modernistas na televisão, compartilhando a beleza de cada cultura regional de todo o Brasil.