Preconceito Linguístico
Enviada em 23/09/2020
A escola literária modernista, que teve por início a Semana de Arte Moderna, de 1922, instituiu uma mudança inédita na forma da escrita brasileira, por meio da valorização da linguagem coloquial e dos regionalismos do país, que antes não possuíam representatividade na literatura nacional. Entretanto, hodiernamente, mostra-se vigente as diferentes discriminações perante à diversidade de linguagens que o Brasil apresenta, por meio do preconceito linguístico. Tal preconceito, ganha projeções ainda maiores, em virtude da composição da linguagem como um instrumento de poder, principalmente nas instituições de ensino, tornando-a um objeto de exclusão social utilizado pelas classes dominantes.
A priori, é fulcral destacar a língua como um instrumento de poder. Sendo assim, de acordo com o filósofo Michel Foucault, o poder é uma relação social que se exerce na totalidade das camadas sociais e, em virtude disso, pode ser usufruído como fator excludente e coercitivo. De tal maneira, as escolas têm um papel disciplinador no que tange à formação cultural dos indivíduos e, portanto, se configuram como as principais catalisadoras da concepção de que a língua é universal, unitária e se fundamenta na norma culta, excluindo as demais manifestações de fala do processo de integração na cultura brasileira.
A posteriori, é imperativo pontuar a língua, já caracterizada como instrumento de poder, sendo responsável pela dominação burguesa. De tal forma, segundo o sociólogo Pierre Bordieu, a cultura são os valores que dão personalidade a um grupo social, logo há o interesse das classes dominantes em cercear as demais formas de identidade nacional, utilizando do discurso da linguagem universal para realçar sua hegemonia e excluir as classes dominadas, que caracteriza o que o pensador chamou de ‘‘capital cultural’’. A exemplo disso, tem-se o caso, de 2016, no qual um médico, usufruindo de sua posição social favorecida, ridicularizou um paciente que se expressava de maneira errônea quanto à norma culta, fato que corrobora com a intensificação da desigualdade e do preconceito social.
Em síntese, infere-se que é de vital importância o combate ao preconceito linguístico do país. Para tal, urge que o Ministério da Educação, em consonância com instituições privadas, elabore palestras educativas, que informem sobre a importância da valorização da diversidade linguística e, consequentemente, lutem pela redução do preconceito contra as manifestações das línguas brasileiras. Só assim, ter-se-á uma sociedade que combata a desigualdade social e as discriminações com as linguagens, de forma a valorizar a diversidade e impedir que o discurso de linguagem unitária se sobressaia, como faziam os poetas modernistas.