Preconceito Linguístico

Enviada em 07/11/2020

O célebre personagem de Maurício de Sousa, Chico Bento, lido por milhões de pessoas ao redor do globo, ilustra não somente a inocência da criança interiorana como também as ofensas perpetradas conforme o dialeto da Língua. O preconceito linguístico, afinal, deve ser compreendido no destrinchar do poderio ofertado por uma linguagem ampla e complexa, a qual, quando ignorada, permite aos infames ataques que somam-se a outras ofensas.

Neste sentido, a temática é preconceituosa ao categorizar grupos entre superiores e inferiores. Isso quer dizer que pessoas já inferiorizadas por tipos de discriminação de cunho racial ou econômica são estigmatizadas por classes dominantes, detentoras do Português padrão. Assim, o linguajar da pessoa preta soma-se à dita burrice inerente da raça ou à rudeza nordestina. Erros de concordância, enfim, são fruto de uma educação precária que, tão sabidamente, aliena os mais pobres, remetente de um passado recente no qual analfabetos eram proibidos de votar. A segregação do ódio quando aplicada à língua é ainda mais desumanizante, uma vez que, a comunicação é uma habilidade inerente e peculiar à espécie humana, como apontado pelo historiador israelense Yuval Harari. A complexidade linguística, portanto, é fundamental ao tema, o preconceito é antítese da democracia em um país continental e multicultural.

Como reforçado, nada disso é válido caso não não se compreenda a matéria da ofensa em discussão : a língua. Segundo linguistas, ela só existe concomitantemente a falantes. Isto é, a língua evolui constantemente, dado um dinamismo, ante a variantes das múltiplas e singulares regiões de um território. Analogamente, a norma culta é mera parcela do fenômeno. Do mesmo modo, se imbuído do  preconceito em questão, um falante do século dezenove, por exemplo, rechaçaria a norma contemporânea privada do pronome “vós”. Embora os anos oitenta tenham sido marcados, na Academia, pela universalização do ensino de uma norma padrão como garantia de uma educação inclusiva, atualmente, reconhece-se a importância de linguagens em sua pluralidade. Logo, os dialetos são registro histórico e sociocultural de comunidades, e, como todo preconceito, o preconceito linguístico é falho sob uma perspectiva linguística.

Em suma, o preconceito linguístico evidencia mais uma estratégia distintiva entre classes, ignorância na complexidade de uma língua. Indubitavelmente, professores e sociolinguistas devem reforçar a apresentação de variedades linguísticas aos discentes, por meio de uma base comum curricular, a fim de minorar a unicidade de uma norma padrão. Finalmente, a leitura de Paulo Freire geraria inspirações produtivas.