Preconceito Linguístico

Enviada em 19/10/2020

João Guimarães Rosa reinventou a literatura brasileira com uma forma expressiva e original da língua portuguesa. Por meio das palavras do jagunço Riobaldo, traduziu para a forma escrita toda a poesia da linguagem oral do sertanejo, com suas variações próprias e obediência à norma essencial da comunicação: a compreensão. Ao longo da narrativa, Riobaldo comenta algumas vezes que não teve a oportunidade de estudar, contudo, a falta de domínio das regras gramaticais não o impediu de transmitir as sabedorias vividas no sertão. Assim, a hipervalorização da norma culta evidencia o preconceito linguístico, que serve para segregar os falantes e tornar o debate pouco democrático.

Em primeiro lugar, é necessário destacar que, a linguagem é um dos principais representantes do arcabouço cultural de um povo, e resumi-la aos padrões gramaticais de “certa ou errada” limita a potencialidade do interlocutor, e os divide em hierarquias. Nesse sentido, a hostilidade advinda do preconceito linguístico é uma violência simbólica, sustentada pela ideia de superioridade de quem usa a língua portuguesa conforme a gramática. Essa violência sutil é explicada pelo sociólogo Pierre Bourdieu, para quem a pretensão de supremacia reivindicada pelo grupo social detentor de capital cultural é uma expressão de segregação dos indivíduos, sendo esta tão poderosa quanto a gerada pelo acúmulo de capital econômico.

Paralelo a isso, o preconceito linguístico produz consequências negativas para a diversidade do debate, pois o discurso é dominado por uma elite cultural que não representa significativa parcela da sociedade. Dessa forma, em um país com 11 milhões de analfabetos como o Brasil, de acordo com a Pnad Educação de 2019, a discriminação em relação as variantes linguísticas cria espaços não democráticos, pois inibe a expressão cultural popular. Essa realidade favorece a continuidade da violência simbólica, dificultando o surgimento de manifestações que sejam, de fato, representativas da sociedade. Em contrapartida, o rapper e apresentador Emicida é uma exemplo de combate a esse cultismo, ao manifestar pensamento crítico por meio da linguagem típica da periferia de São Paulo, tornando-se referência para milhões de jovens brasileiros.

Portanto, é necessário combater o preconceito linguístico, que apenas empobrece a cultura e segrega os falantes. Para tanto, as escolas e Universidades públicas devem romper com o elitismo linguístico desse meio, atuando para um ensino democrático e diverso, com incentivo à manifestação dos alunos, por meio de concursos de poesia e peças teatrais, promovendo o contato com as variantes linguísticas, e a integração da comunidade local com o universo acadêmico. Só assim será possível encantar-se pelo conhecimento de outrem, sem julgamentos linguísticos, assim como encantaram-se com Riobaldo.