Preconceito Linguístico
Enviada em 23/10/2020
A Constituição Federal de 1988 - norma de maior hierarquia no sistema jurídico brasileiro - assegura o princípio de isonomia, o qual todos os cidadãos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza. No entanto, na conjuntura contemporânea ,ao se analisar o cenário linguístico, observa-se que esse preceito não é efetivo na prática ,visto que uma parcela significativa da sociedade sofre discriminação social , em virtude das expressões no modo de falar. Nesse contexto, urge analisar como a gramática normativa e a normalização da intolerância impulsionam tal problemática.
Convém ressaltar, a princípio, que o preconceito linguístico no âmbito social está intrinsecamente relacionado ao português padrão. Segundo o sociólogo Pierre Bourdieu, a função do sistema de ensino é servir de instrumento das desigualdades sociais. Sob tal ótica, uma elite econômica e intelectual que dominam a normatividade da língua portuguesa inferioriza as diversas variações linguísticas, à medida que impõe uma maneira ‘‘correta’’ da escrita e oralidade do português. Nesse viés, muitos indivíduos com baixo nível de escolaridade são marginalizados socialmente por pronunciarem a língua padrão de formas diferentes. Desse modo, a gramática normativa desconsidera inúmeros dialetos e, consequentemente, propicia a perpetuação desse preconceito no seio social.
Outrossim, vale salientar que a banalização da intolerância contra as minorias na sociedade corrobora para a manutenção do preconceito aos regionalismos linguísticos. De acordo com a teoria determinista do século XX, o homem é um reflexo social do meio em que está inserido. Nessa perspectiva, uma parte da população que residem em cidades mais desenvolvidas, como no Sudeste e Sul, perpetuam concepções arcaicas de que os regionalismos dessas regiões são superiores. Diante disso, os cidadãos que ocupam outros lugares do país são inferiorizados ,haja vista que possuem estilos próprios de expressarem o português e,dessa maneira, por não seguirem a norma culta padrão são vítimas constantes de sarcasmo.
Infere-se ,portanto, que é imprescindível adotar medidas para mitigar a discriminação linguística no cenário nacional. Logo, cabe ao Ministério da Educação - ramo do Estado responsável pela formação civil - promover nas escolas ,desde as séries iniciais, palestras e atividades lúdicas, as quais visem desmistificar os preconceitos concebidos aos dialetos e proporcionar uma ação reflexiva acerca das diversas variações linguísticas, uma vez que as instituições de ensino possibilitam maior interação entre os indivíduos de classes sociais e lugares diferentes. Isso deve ser feito por meio de disciplinas, tais como português e sociologia, a fim de propiciar o contato dos discentes com distintas expressões do falar.