Preconceito Linguístico
Enviada em 09/11/2020
“Eu perdi a discussão, mas pelo menos corrigi a gramática do meu oponente. Me senti um lorde inglês”. Essa frase do ilustre escritor brasileiro Érico Veríssimo ilustra bem o panorama do preconceito linguístico, no qual a oratória de muitas pessoas são invalidadas pela valorização da norma culta. No caso desse preconceito, pode-se dizer que ele existe devido à coercitividade social e contribui para a perpetuação da xenofobia no país. Nesse contexto, a permanência dessa intolerância social reflete um empecilho desafiador para que parte da população consiga expressar-se oralmente ou gramaticalmente sem que haja recriminação por outras pessoas.
Mormente, é necessário citar o conceito de coercitividade social elaborado pelo sociólogo Émile Durkheim, no qual os costumes, valores e as normas de comportamento impõem-se às pessoas que, normalmente, aceitam sem questioná-las para que possam sentirem-se parte do coletivo. Dessa forma, é evidente que o pensamento de Durkheim está intrinsecamente atrelado à problemática do preconceito linguístico, uma vez que, hodiernamente, o uso da norma culta está associado, no senso comum, à erudição, à formação educacional e à civilização e aqueles que usam inadequadamente a linguagem são categorizados como estúpidos, analfabetos e, não raro, favelados. Consequentemente, esse problema corrobora para a manutenção da desigualdade socioeconômica no país, visto que o preconceito dificulta a empregabilidade do indivíduo, haja vista que o empregador priorizará aquele que dialoga respeitando a gramática normativa.
Outrossim, o preconceito linguístico está intimamente ligado à xenofobia. Nesse sentido, esse problema toma contornos específicos no Brasil, sendo as principais vítimas os cidadãos nordestinos e nortistas, cuja variação linguística de suas oratórias são ridicularizadas pela mídia e pela elite do país. A exemplo disso, observa-se em como essas pessoas são representadas nas novelas e na cinematografia brasileira, cujo estereótipo do nordestino analfabeto e estúpido está, quase sempre, presente nessas produções, como no filme protagonizado pela Regina Casé “Que Horas Ela Volta?”, no qual retrata uma mãe nordestina que veio para o sudeste em busca de melhores condições de vida e, nesse filme, é retratado os preconceitos que ela sofre, inclusive, pelo seu sotaque característico.
Urge, portanto, uma solução definitiva para esse problema. Para isso, cabe à Academia Brasileira de Letras, por meio de uma petição a qual deve coletar assinaturas de pessoas nas ruas, pressionar o Poder Legislativo para que seja criada uma lei que criminalize o preconceito linguístico e multe o praticante em uma indenização de 3 salários mínimos à vítima. Assim, espera-se que o preconceito tangente à linguagem seja atenuado no Brasil.