Preconceito Linguístico
Enviada em 14/11/2020
A língua é uma das ferramentas de interlocução mais importante da humanidade, sendo ela propulsora das relações grupais que possibilitam o surgimento de civilizações complexas. Isso posto, hodiernamente, coloca-se em pauta o preconceito linguístico e seus feitos no Brasil, considerado que esse se mostra como um obstáculo para o cumprimento da finalidade primeira da comunicação: o esta-belecimento de trocas experienciais. Diante disso, cabe a análise acerca do processo histórico do qual culmina a problemática, além da observação acerca os aspectos que possibilitam a sua perpetuação.
É relevante destacar, primeiramente, que, para o sociólogo Auguste Comte, nenhuma ideia seria compreendida se não por meio do processo histórico que a compõe. Sob essa ótica, o preconceito linguístico em território pátrio é fruto de tentativas de homogeneização linguística, ocorridas durante o Período Colonial a partir da imposição do português como língua hegemônica — embora o país contasse com cerca de mil falas indígenas e 200 dialetos africanos introduzidos com o tráfico negreiro. Com isso, constitui-se no ideário social uma relação entre as variações linguísticas e o distanciamento das classes, historicamente, detentoras do poder socioeconômico, mesmo diante do mosaico linguístico que forma a identidade do português brasileiro.
Paralelo a isso, a descriminação baseada em variações lexicais é intimamente ligada a preconceitos sociais que servem, comumente, para a exclusão daqueles que estão à margem social do debate cole-tivo. Tal fato é apresentado, por exemplo, na obra nacional “Que horas ela volta?”, em que as flexões e regionalismos que compõem o vocabulário da personagem Val — nordestina e empregada doméstica de uma família rica — são motivos de chacota, demonstrando os aspectos sociais que regem a discussão relativa aos usos da língua portuguesa no país. Ademais, compreende-se que a estrutura educacional brasileira é constitutiva na formulação da descriminação sociolinguística, tendo em vista que, segundo Kant, os males sociais são consequências das trajetórias socioeducativas do indivíduo.
Portanto, diante da lógica kantiana, é necessária a criação de resoluções educacionais para remediação do preconceito linguístico no Brasil. Assim, cabe ao Ministério da Educação, em ação inter-setorial com as Secretarias de Educação Estaduais, propor, por intermédio de minicursos — orientados por educadores das áreas de Letras e Ciências Humanas —, intervenções nas comunidades, utilizando-se das escolas, voltadas a elucidar a formação histórica da língua nacional e os seus significadas e manifestações na vida social contemporânea, visando comunicar sobre a importância da tolerância e respeito, a julgar pela importância dessa ferramenta milenar na aproximação humana.