Preconceito Linguístico

Enviada em 18/12/2020

O preconceito linguístico é, sem dúvida, um grave problema ainda presente na sociedade brasileira, que, embora orgulhosa da sua diversidade, nutre uma certa discriminação regional dentro de si. No entanto, apesar da intolerância linguística ser uma problemática ampla, é relevante destacar que, no caso do Brasil, esse preconceito é especialmente direcionado aos nordestinos e nortistas, o que revela o aspecto geoeconômico da situação. Por esse motivo, para minimizar o problema, convém reconhecer tanto as origens e implicações históricas do tema quanto valorizar as contribuições linguísticas e culturais de cada região para o país.

Em primeiro lugar, é de fundamental importância considerar o preconceito linguístico como resultado do próprio processo de modernização do Brasil. É bem verdade que, por um lado, o nacional-desenvolvimentismo dos presidentes Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek, de fato, promoveu a industrialização do país nas décadas de 1930 e 1950, contudo, por outro, ele acabou por acentuar uma já existente disparidade regional entre norte e sul da nação. Dessa forma, em função do desenvolvimento econômico centralizado, emergiram duas realidades nacionais distintas: uma desenvolvida e urbanizada e outra, supostamente, atrasada e subdesenvolvida. Por isso, é correto deduzir que o preconceito linguístico é, em verdade, uma discriminação social de ordem geoeconômica.

Ademais, para solucionar o problema, é preciso, primordialmente, divulgar e integrar os diferentes aspectos linguísticos e culturais do país. Assim, torna-se necessário difundir as contribuições de cada região não só para a evolução histórica do povo brasileiro, mas para a própria formação da língua mãe. Com efeito, cabe ao Estado relembrar a origem e incentivar a leitura de escritores como José de Alencar, Castro Alves e Jorge Amado, os quais eram nordestinos e cujas contribuições são inestimáveis para a literatura brasileira, assim como Ferreira Gullar, Augusto dos Anjos, Rachel de Queiroz, entre outros. Em suma, é importante retomar o amplo valor cultural e linguístico que cada parcela do povo brasileiro possuiu e possui para a nação.

Portanto, em geral, é preciso estimular uma ampla reflexão histórica e social de maneira a enfrentar as simplificações a respeito do assunto. Sendo assim, cabe a Secretária Especial de Comunicação Social (SECOM) o dever de criar, por meio dos recursos da União, campanhas publicitárias que valorizem e divulguem as variantes linguísticas dos brasileiros, visando, por exemplo, combater o mito da norma culta como a única modalidade correta do português e sugerir o contato com obras artísticas que exploram as variações da língua, como a literatura de cordel ou o próprio rap. Com essa medida, certamente a intolerância linguística irá diminuir no Brasil.