Preconceito Linguístico
Enviada em 25/11/2020
Na mitologia grega, Sísifo foi condenado por Zeus a rolar uma enorme pedra morro acima eternamente. Todos os dias, Sísifo atingia o topo do rochedo, contudo, vencido pela exaustão, era incapaz de evitar que a pedra retornasse à base. Hodiernamente, esse mito assemelha-se às vítimas do preconceito linguístico no Brasil, as quais buscam ultrapassar as barreiras que as separam do seu direito de fala. Nesse contexto, não há dúvidas de que esse tipo de intolerância ocorre no Brasil devido não só pelo preconceito por parte da sociedade, mas também pela idealização de uma norma culta tomada como certa.
Em primeira análise, observa-se que o preconceito linguístico está cada vez mais arraigado na sociedade brasileira, sendo possível identificá-lo em programas televisivos, além de matérias humorísticas veiculadas em jornais e revistas. Em programas da rede de televisão aberta, Rede Globo, como “Zorra Total” e “A Praça é Nossa”, há a presença de personagens que buscam entreter os telespectadores ao se apresentarem como falantes da norma não-padrão. Dessa forma, a construção do humor baseada nas diversidades linguísticas do português brasileiro é de grande contribuição para a normalização equivocada do preconceito linguístico no dia a dia da sociedade.
Além disso, o renomado linguista brasileiro, Marcos Bagno, em sua obra “Preconceito Linguístico”, citou, como um agravante para a discriminação, a idealização de uma norma culta a partir da desvalorização de variantes do português. Ademais, de acordo com o pensador austríaco, Ludwig Wittgenstein, “Os limites de minha linguagem significam os limites de meu mundo”, de forma que, para o filósofo, a linguagem é a forma pela qual o sujeito interpreta o meio. Nesse contexto, fica claro que o olhar pejorativo da sociedade às diferentes variantes e formas de comunicação da língua portuguesa são, sob o mesmo ponto de vista que Wittgenstein, visões contraditórias à função primordial de um sistema linguístico: o entendimento e a troca de informações.
Faz-se necessário, portanto, que medidas sejam tomadas. Cabe às instituições de ensino, enquanto formadoras de cidadãos, promover discussões e debates acerca da temática em questão, incluindo, no currículo da disciplina de Língua Portuguesa, planejamentos voltados para o estudo mais aprofundado da variabilidade linguística. De tal modo, os estudantes poderão valorizar, por exemplo, a fala de habitantes da zona rural como uma variante, nem certa nem errada. Não obstante, é imperativo que o Estado desenvolva e implemente leis acerca do preconceito linguístico, de forma que fique clara a importância entre as diversas formas de expressar a língua portuguesa. Dessa forma, tornar-se-á possível o combate efetivo ao preconceito linguístico e seus impactos na sociedade brasileira.