Preconceito Linguístico
Enviada em 07/12/2020
No atual contexto brasileiro, há uma tendência de combate às mais variadas formas de discriminação, como manifestações contra o racismo e a homofobia. Contudo, pouco se questiona a respeito do preconceito linguístico, estando este incorporado de tal maneira na sociedade, que se tornou invisível à maioria da população. Assim, a ideia de que existe apenas uma língua correta, baseada na gramática normativa, faz-se muito presente, sendo as demais variantes de expressão consideradas inferiores.
A formação do Brasil possui como uma de suas principais características o sincretismo cultural. Nesse sentido, há, no país, uma pluralidade de etnias que naturalmente reflete-se na linguagem, dando origem a diversas gírias e sotaques característicos de diferentes regiões do território nacional. No entanto, o modelo educacional utilizado nas escolas considera apenas as tradicionais normas gramaticais, rejeitando, na maioria das vezes, o fato da língua ser um mecanismo vivo sujeito a constantes transformações. Com isso, estabelece-se como correto somente o padrão culto, e a importância da variação linguística para a riqueza do idioma, é ignorada.
Ademais, é possível perceber que a discriminação linguística é uma das faces do preconceito social, tendo em vista que as variedades de fala populares utilizadas por grupos marginalizados são desvalorizadas, enquanto aquelas utilizadas por segmentos com maior prestígio e escolaridade, são apreciadas. Como consequência, o domínio da linguagem culta torna-se um exemplo de poder. Um exemplo, na literatura brasileira, é Fabiano, protagonista da obra “Vidas Secas” de Graciliano Ramos, que passa por muitas dificuldades no decorrer da trama, devido, sobretudo, à sua imensa carência de expressão verbal.
Em suma, o preconceito linguístico, ao depreciar o indivíduo e sua identidade pela forma de se expressar, representa um acinte aos direitos das parcelas afetadas, necessitando ser combatido. Nesse sentido, assiste ao Ministério da Educação a inserção de aulas obrigatórias e livros didáticos que enfatizem as variantes linguísticas na disciplina de Língua Portuguesa, visando reduzir a dicotomia do ensino. Dessa forma, a diversidade será entendida e representada como um fenômeno inerente ao idioma.