Preconceito Linguístico

Enviada em 28/12/2020

Na obra “O triste fim de Policarpo Quaresma”, de Lima Barreto, é apresentado a história de um homem que queria a língua tupi-guarani como oficial no Brasil, o que causou intolerância com suas idealizações. Do mesmo modo, fora da ficção, esse cenário assemelha-se ao brasileiro, uma vez que ainda perpetua no país o preconceito linguístico, que, além de acentuar a discriminação e a ideia de desigualdade, é estimulado por diversos fatores. Dentre eles, o sistema educacional, o qual não aborda essa problemática nas aulas, e a inoperância estatal, que não conta com medidas que visem quiçá essa situação. Dessa forma, exigem-se medidas paliativas.

A princípio, é válido salientar da Constituição Federal, em seu artigo 6º, que assegura o direito à educação plena aos cidadãos. Contudo, esse documento é ferido, haja vista que, prendendo-se apenas à norma padrão, os âmbitos educacionais não instruem aos alunos sobre as variantes da língua, como ela muda e adota critérios históricos, regionais e sociais, acentuando a intolerância e falta de conhecimento dos discentes. O poeta Carlos Drummond Andrade, em seu poema “Aula de Português”, critica os padrões de fala impostos no território brasileiro, visto que se descarta a presença das variações da linguagem e das diferentes realidades da população, o que mostra o quão grave é o impasse.

Outrossim, segundo a filósofa Hannah Arendt, em seu arcabouço de banalidade do mal, o Estado negligencia situações problemáticas na sociedade. Logo, essa teoria aplica-se ao cenário brasileiro, dado que o Governo, fomentado pela banalização, não conta com políticas públicas que combatam à intolerância quanto a fala e apresente as diversas variantes dela no país, alimentando a discriminação e a não aceitação. Posto isso, a 2ª geração do Modernismo trouxe ao público diversas obras que retratavam a problemática e apresentava as variações da oratória, como as dos nordestinos, porém, sofreu críticas e foi tratada como diferente e errada, mostrando que quando a banalização é regra, a aceitação da linguagem é exceção.

Por conseguinte, compete ao Ministério da Educação, em parceria com as escolas, a criação de uma matéria específica dentro da área Língua Portuguesa que, por meio de oficinas, debates e dinâmicas, apresente as variantes da fala e os diversos cenários em que elas se fazem presente, bem como suas situações histórias e culturais, a fim de aumentar o conhecimento e aceitação da população. E só assim, com medidas graduais e progressivas, diminuir o preconceito linguístico e evitar que o livro de Lima Barreto seja um espelho da sociedade brasileira.