Preconceito Linguístico
Enviada em 20/02/2021
No filme “Que horas ela volta?”, dirigido por Anna Muylaert, é retratado a vida de duas nordestinas em São Paulo, comumente vítimas de intolerância linguística advinda de seus patrões. Nesse contexto, apesar de se tratar de uma ficção, o filme retrata a realidade do século XXI, uma vez que o preconceito linguístico revela-se como instrumento de exclusão social, evidenciando tal discriminação como uma face da desigualdade na sociedade brasileira. Desse modo, questões como as causas e efeitos desse problemática devem ser postas em vigor a fim de serem compreendidas e combatidas.
É relevante abordar, primeiramente, que no processo de colonização brasileira, observa-se à imposição de falares hegemônicos, como o português, sobre o Tupi e línguas africanas. Nesse sentindo, apesar de datarem-se de séculos atrás, a construção escolar, acadêmica e midiática contemporânea revelam o prestígio da variante da norma-padrão associada às elites, sendo opostas às variantes informais, inferiorizadas, relacionadas às classes mais baixas, tornando-se evidente a influência desse pensamento colonizador. Sendo assim, tal fato é observado ao analisar-se o falar interiorano e caricatural do personagem Chico Bento, criado por Maurício de Souza, revelando uma escola que sustenta frequentemente a ideia do “falar errado”, formando uma sociedade desigual e preconceituosa.
Em decorrência disso, é relevante abordar que no livro “Preconceito Linguístico: o que é e como se faz?”, escrito pelo linguista Marcos Bagno, é abordado tal intolerância como também um preconceito socioeconômico. Deste modo, questões como o aumento da exclusão econômica no mercado de trabalho que estabelece o domínio do português padrão como exigência, e social com o reforço do sentimento de inferioridade dos indivíduos com pouca escolaridade e limitação de sua liberdade comunicativa, sustentam a ideia de Bagno. Dessa forma, tais questões são observadas na entrevista realizada pelo Portal Northi com Ana Paula Fernandes, designer nordestina, que relata sobre as inúmeras vezes que foi taxada como não profissional e vítima de piadas pelo seu jeito de falar.
Evidencia-se, portanto, que o preconceito linguístico apresenta-se como uma das faces da desigualdade e seus efeitos apresentam-se como uma problemática na sociedade brasileira. Portanto, cabe ao Ministério da Educação, responsável pela administração e manutenção desse setor, adotar medidas como a promoção de aulas de debates e reflexão sobre as variantes linguísticas nas salas de aulas, promovendo maiores investimentos governamentais para melhorar a qualidade da educação e adotar campanhas de divulgação em meios de ampla circulação e acesso de pessoas, a fim de conscientizar e amenizar o preconceito linguístico na contemporaneidade. Somente assim será possível que o filme “Que horas ela volta?” represente apenas o fictício e não a realidade do século XXI.