Preconceito Linguístico

Enviada em 26/03/2021

Manoel Bandeira, escritor e poeta brasileiro, diz em seu poema, “Evocação do Recife”, que: língua certa é a do povo, ao passo que nós o que fazemos é macaquear a sintaxe lusíada. Tal poética, contextualiza na atualidade uma forma de discriminação e segregação social persistente no Brasil: o preconceito linguístico, pautado na inflexibilização e pureza gramatical oral e escrita. Sem dúvidas, a má influência midiática e o sistema educacional reproduzem e alimentam essa problemática.

Inicialmente, é importante analisar o papel da mídia nessa questão. Para isso, cabe aludir o pensamento de Pierre Bourdieu, filósofo francês, o qual recita que aquilo que foi criado como instrumento de democracia não deve ser convertido em um mecanismo de opressão. É nesse contexto que os meios de comunicação e entretenimento de massa, em sua maioria, funcionam como ferramentas opressivas e de discriminação linguística. Afinal, cotidianamente, se observa em jornais, novelas e programas televisivos a criação de estereótipos linguísticos e uma valorização extremada a norma culta que com efeito exclui e deprecia os falantes das variedades linguísticas regionais ou que não seguem a norma culta, negando sua identidade linguística e cultural.

Ademais, a escola tem papel determinante na perpetuação do problema, e em muitos casos, é o berço. No livro “Preconceito linguístico: o que é, como se faz”, Marcos Bagno, linguista, e autor da obra diz que os centros educacionais contribuem para essa forma de discriminação por meio de uma tríade: o ensino tradicional, a gramática normativa e os livros didáticos compelidos de forma normativa. Desse modo, o sistema de ensino ao desconsiderar as variantes linguísticas, em qualquer esfera da tríade, ao negar sua discussão e reconhecimento em ambiente educativo, e restringir, majoritariamente, o estudo da língua portuguesa a aspectos morfossintáticos acaba silenciando dialetos históricos do povo que, notavelmente, representam um patrimônio cultural nacional.

Portanto, é necessário ações de combate ao preconceito linguístico a fim de garantir as diversas variantes linguísticas em sociedade. Em primeiro lugar, cabe ao Ministério das comunicações promover uma maior regulamentação nos meios midiáticos. Para isso, se deve criar um comitê específico – formado por especialistas nas áreas jurídicas e de línguas – de modo a fiscalizar, notificar e punir aqueles que promovam discriminações linguísticas. Assim, evitando e reduzindo a disseminação desse comportamento errático na sociedade. Por outro lado, é dever do Ministério da Educação reorganizar o sistema de ensino, por meio de uma revisão dos currículos, materiais didáticos e métodos de ensino, em que, nesses, seja introduzido com maior ênfase o estudo das variedades linguísticas, desse modo, valorizando-as.