Preconceito Linguístico

Enviada em 03/08/2021

O livro “Vidas Secas”, do escritor brasileiro Graciliano Ramos, narra a história de Fabiano, personagem que sofre preconceito em razão de seu modo de falar. De maneira análoga à obra literária, hodiernamente, esse tipo de discriminação é presente na sociedade e, por ser prejudicial, necessita de debate. Assim, torna-se pertinente a discussão acerca de caminhos para combater a intolerância linguística, tais como: a mudança nas práticas pedagógicas e o rompimento com a herança histórica repressiva.

De início, cabe destacar que superar o estima em relação ao falar do indivíduo durante o ensino é essencial. Isso porque os alunos que não utilizam a norma culta ao se comunicarem, por exemplo, podem sofrer com a segregação no ambiente escolar, o que provoca danos nocivos aos cidadãos. Nessa perspectiva, a frase “Se a educação sozinha não muda o mundo, sem ela tampouco a sociedade muda”, do educador e filósofo pernambucano Paulo Freire, pode ser associada a essa situação, tendo em vista que a educação tem papel fundamental na formação do corpo discente e, por conseguinte, deve ser inclusiva. À luz disso, faz-se evidente a imprescindibilidade de promover uma pedagogia abrangente como ferramenta de luta contra o preconceito linguístico.

Outrossim, convém também ressaltar que os valores históricos transmitidos como herança brasileira precisam ser debatidos. Um exemplo disso é o fato de, desde a colonização portuguesa no Brasil, período em que uma língua estrangeira foi imposta aos nativos, cerca de 85% de linguajares indígenas terem desaparecido, consoante uma pesquisa realizada pela Universidade Estadual de Campinas. Sob esse viés, fica claro que a perpetuação de uma língua padrão faz com que falares diferentes sejam hostilizados e reprimidos, o que se relaciona com o conceito de “violência simbólica”, teorizado pelo sociólogo francês Pierre Bordieu, já que é uma forma de opressão sem a coação física. Nesse contexto, torna-se inegável a necessidade de rompimento com tais arquétipos linguísticos estacionários.

Em face do exposto, portanto, medidas são cruciais para mitigar o preconceito linguístico. Logo, compete ao Ministério da Educação formular um projeto nas instituições de ensino brasileiras de reconhecimento e acolhimento dos variados dialetos dos alunos. Isso deverá ser feito mediante a destinação de verbas à realização de oficinas semestrais de multiculturalidade -ministradas por professores de Sociologia com o auxílio de profissionais linguistas-, com o fito de capacitar os cidadãos desde a infância a confrontarem padrões linguísticos opressores e, desse modo, efetivarem a inclusão de indivíduos com linguajares diversos.