Preconceito Linguístico
Enviada em 07/05/2021
A obra literária “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, narra a vida de uma humilde família retirante nordestina, que foge do castigo da seca. Na trama, o chefe da família, sente-se como um animal, pois não possui domínio da norma padrão. Essa obra, apesar de ter sido publicada há quase um século, também apresenta uma intolerância que existe na atualidade: o preconceito linguístico. Nesse aspecto, fatores educacionais e socioculturais contribuem para a manutenção do problema.
A princípio, a educação é essencial para o combate do preconceito linguístico em âmbito nacional. Sendo assim, o pensador suíço Jean Piaget apresenta a realidade do sistema escolar moderno, no qual se baseia em um modelo que não incentiva o pensamento crítico dos estudantes e muito menos na convivência com as diversidades dos seres humanos. Esse sistema apenas se preocupa em dar as matérias necessárias para os alunos serem aprovados e passarem de ano. Logo, cria-se sujeitos aprisionados a uma bolha, sem contato com diferentes convívios e diversidades presentes na sociedade brasileira.
Ademais, um fator que viabiliza o preconceito linguístico é o contexto sociocultural. Segundo Émile Durkheim, o fato social é caracterizado por pensamentos exteriores e repressivos ao indivíduo. Por consequência, percebe-se que, na história brasileira, o domínio da língua formal foi decisório na formação de classes e, por conseguinte, do preconceito. Além disso, a presença da norma padrão da língua portuguesa comprovou a intolerância, visto que suas variantes foram desprezadas. Sob essa tendência, a construção de esteriótipos foi fortificada, seja pelo acesso precário à educação ou pela linguagem regional. Desse modo, pessoas de diversas regiões do Brasil são oprimidas e hostilizadas por se exprimirem divergentemente da exigida pela classe dominante.
Portanto, é fundamental buscar combater o preconceito linguístico impregnado na sociedade brasileira contemporânea. Para isso, o Ministério da Educação e Cultura (MEC) deve, junto às Secretárias de Educação, reformular o currículo escolar e incluam o ensino das variantes da língua, através de cartilhas, literaturas e atividades extracurriculares, de modo que crianças cresçam e respeitem as diferenças existentes. Ademais, o Ministério da Cidadania pode impulsionar a diversidade regional através da divulgação de projetos que promovam o pensamento de respeito as culturas das regiões brasileiras, para que as linguagens características de povos brasileiros, sejam vistas com admiração e não com deboche e preconceito. Destarte, esse triste aspecto retratado na obra regionalista “Vidas Secas” não fará mais parte do contexto brasileiro.