Preconceito Linguístico

Enviada em 07/05/2021

Qual falta de conhecimento sobre a língua deve ser combatida?

A comunicação verbal depende da capacidade de entender a subjetividade da língua. Na Grécia antiga, o filósofo Platão compreendeu a metafísica pensando na existência de dois mundos: o das ideias e o sensível, desse modo, diferenciando os humanos dos outros seres pela capacidade de abstração. A dualidade do pensamento platônico pode explicar a infinidade de formas de comunicação verbal, muito além da normatividade da gramática portuguesa.

A priori, a metafísica dualista desenvolvida pelo pensamento de Platão explica que, por trás mundo vivido pelos seres humanos - o denominado “mundo sensível” por compreender a vida material-, existe uma realidade abstrata chamada “mundo das ideias”, onde tudo é perfeito e eterno, podendo ser acessado apenas através da racionalidade, uma vez que é nele onde se encontra o conhecimento. Desse modo, a comunicação verbal e o conhecimento são excepcionalmente humanos, pois como disse o pensador francês Rousseau, “a razão forma o ser humano”. Além disso, para Vygotsky, é por meio das palavras que o ser humano pensa, pois a abstração e a generalidade só ocorrem através da linguagem e, por meio dela, melhor compreendemos o mundo à nossa volta - o “mundo sensível”, segundo o pensamento de Platão.

Isto é, existe uma unidade dialética entre a racionalidade e a abstração, capaz de gerar a comunicação verbal e, em suma, infinitas formas de linguagem verbal, concomitantemente às infinitas formas de abstração. Todavia, a normatividade da gramática portuguesa não é suficiente para englobar a língua portuguesa, pois a norma culta da gramática compreende apenas uma parte da língua, a considerada correta de acordo com os dicionários formais e os linguistas. Por conta da ignorância a respeito da língua, existe o preconceito linguístico, do qual desconsidera o restante da língua considerado informal, seja por não saber que a linguagem verbal extrapola às normas cultas da gramática ou por não considerar as condições materiais de cada sujeito - a expectativa de escolaridade, nível de alfabetização e acesso à educação proporcionada a cada indivíduo de acordo com a sua classe social e renda. Segundo o Índice Brasileiro de Geografia e Estatística, em 2015, o Brasil tinha 8,9% da sua população com mais de 15 anos sem saber ler ou escrever.

Logo, o preconceito linguístico, de qualquer forma, é causado pela ignorância, enquanto o analfabetismo é resultado da falta de escolaridade de um sujeito. Por isso, é necessário elevar os investimentos em educação pública, com recursos vindos de uma tributação progressiva sobre os mais ricos, para erradicar o analfabetismo e combater o preconceito linguístico nas instituições de ensino.