Preconceito Linguístico
Enviada em 12/05/2021
Brás Cubas afirmou, em sua autobiografia, não ter tido filhos, assim não transmitiu a nenhuma criatura as mazelas da sociedade. Talvez hoje ele percebesse acertada sua decisão: a postura de muitos brasileiros frente à intolerância linguística é uma das faces mais perversas de um corpo social em desenvolvimento. Com isso, surge a problemática do preconceito linguístico que persiste intrinsecamente ligada à realidade do país, seja pela insuficiência de leis, seja pela lenta mudança de mentalidade social.
Para entender esse cenário, é necessário, antes de tudo, destrinchar os diversos fatores que o provocaram,a exemplo da insuficiência de normas. Nesse sentido, conforme o filósofo John Locke, onde não há lei, não há liberdade. Assim, nota-se que a falta de punição para os indivíduos que cometem perseguição linguística corrobora para a perduração desse quadro nocivo. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, cerca de 38% dos brasileiros nunca foram à escola. Por conseguinte, boa parcela da população nacional não teve a oportunidade de ser letrado, tendo pouco ou nenhum contato com a forma culta da gramática. Desse modo, urge a extrema necessidade de alterações estruturais para a ocorrência de melhor qualidade de vida para todos.
Ademais, a mentalidade coletiva também colabora para a continuidade dessa conjuntura. Consoante o texto “O direito à literatura”, Antônio Cândido constata que “Os nossos direitos são mais urgentes que o do próximo”. Essa constatação, infelizmente, assume contornos específicos ao analisar a questão da discriminação no Brasil. Apesar de um grande avanço social, muitas pessoas ainda acreditam ser melhores do que outras que obtêm conhecimentos gramaticais menores. Logo, tais cidadãos consideram que não devem respeitar os mais pobres e menos intelectuais, apenas pelo fato de obterem nível educacional mais elevado.
Portanto, para não ocorrer mais casos como o de Brás Cubas, cabe ao Ministério da Educação promover palestras e aulas dentro de instituições educacionais para ensinar e debater as diferenças linguísticas, por meio da contratação de professores, disponibilizando, ainda, essas aulas para toda a população, com o objetivo de inserir essa prática na sociedade e diminuir episódios de exclusões. Outrossim, pais e responsáveis devem ensinar aos seus filhos que todo e qualquer tipo de rejeição é contra a ética do que é ser humano, impossibilitando-os de julgarem sotaques e regiões distintas apenas por falarem de modo diferente.