Preconceito Linguístico
Enviada em 13/05/2021
Brás Cubas, o defunto-autor de Machado de Assis, diz em suas “Memórias Póstumas” que não teve filhos e não transmitiu a nenhuma criatura o legado da nossa miséria. Talvez hoje ele percebesse acertada sua decisão: a postura de muitos brasileiros frente à intolerância linguística é uma das faces mais perversas de um corpo social em desenvolvimento. Com isso, surge a problemática do preconceito linguístico que persiste intrinsecamente ligada à realidade do país, seja pela insuficiência de leis, seja pela lenta mudança de mentalidade social.
Primeiramente, a insuficiência de normas se evidencia como promotora do imbróglio. Nesse sentido, conforme o filósofo John Locke, onde não há lei, não há liberdade. Assim, nota-se que a falta de punição para os indivíduos que cometem perseguição linguística corrobora para a perduração desse quadro nocivo. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, cerca de 38% dos brasileiros nunca foram à escola. Por conseguinte, boa parcela da população não teve a oportunidade de ser letrado, tendo pouco ou nenhum contato com a forma culta da gramática. Desse modo, urge a extrema necessidade de alterações estruturais para a ocorrência de melhor qualidade de vida para todos.
Ademais, a mentalidade coletiva também colabora para a continuidade dessa conjuntura. Consoante ao texto “O direito à literatura”, Antônio Cândido constata que “Os nossos direitos são mais urgentes que o do próximo”. Essa constatação, infelizmente, assume contornos específicos ao analisar a questão da discriminação no Brasil. Nesse viés, um caso de repúdio linguístico foi testemunhado na vigésima primeira edição do reality show Big Brother Brasil. A participante paraibana Juliette Freire sofreu uma série de ataques pelo seu jeito de falar, principalmente da rapper Karol Conká, que afirmou ter mais educação que a nordestina por ser de Curitiba. Dessa foma, observa-se como muitas pessoas ainda acreditam ser melhores que outras que obtêm conhecimentos gramaticais menores, apenas por se expressarem de forma acadêmica.
Portanto, com o objetivo de não ocorrer mais casos como o de Brás Cubas, cabe ao Ministério da Justiça, órgão máximo responsável por garantir os direitos políticos, promover o maior respeito entre a coletividade, por meio de um projeto de lei para aprovar a punição legal a quem cometer atos ou falas preconceituosas — inclusive no mundo virtual — acerca da linguagem utilizada por determinados seres humanos, tornando esse crime inafiançável. Outrossim, pais e responsáveis devem ensinar aos seus filhos que toda e qualquer categoria de rejeição é contra a ética do que é ser humano, impossibilitando-os de julgarem sotaques e regiões distintas apenas por falarem de modo diferente.