Preconceito Linguístico

Enviada em 16/05/2021

Desde a Colonização Portuguesa, o Brasil passou por um processo de miscigenação, uma vez que, devido ao contato com vários povos estrangeiros, adveio um multiculturalismo complexo e abrangente. Hodiernamente, entretanto, ocorre a desqualificação das heranças de cunho étnico-cultural, que são as raízes da formação tupiniquim, de modo que procede a fomentação do preconceito linguístico. Diante disso, faz-se preciso analisar como o ideário de purismo linguístico e razões socioeconômicas unificam-se para promover a contrariedade.

É oportuno, antes de tudo, discorrer acerca da crença de a norma culta ser superior às demais variações linguísticas. Nesse sentido, Pierre Bourdieu, sociólogo francês, em sua obra “A economia das trocas linguísticas: o que falar quer dizer”, aponta uma língua que desfruta do prestígio social em detrimento das posteriores marcas oratórias. Esse quadro nefasto é compelido em virtude de a norma culta ser, indubitavelmente, amparada pela legislação, e seu aprendizado possuir um forte viés elitista, de maneira que os indivíduos que não a dominam sofrem estigmatização no tecido social. Logo, enquanto a norma culta for monopolizada sob uma égide, o preconceito linguístico transcorrer-se-á.

Igualmente, torna-se imprescindível abordar fatores socioeconômicos e seus impactos. Acerca disso, é proveitoso retomar a máxima do professor e linguista Carlos Bagno, que acusa a influência da desigualdade social como mola propulsora à ordenação do óbice, dados que os cidadãos menos abastados sofrem com o acesso limitado à educação e à cultura. Com efeito, estes são excluídos, principalmente, de profissões devidamente remuneradas, as quais possuem como exigibilidade a dominação da norma culta. Destarte, a polarização da educação fere os preceitos de isonomia constados na Constituição Cidadã.

Em síntese, a fim de atenuar o preconceito linguístico no Brasil, é preciso que o Ministério da Educação e da Cultura (MEC) - órgão responsável pela criação de políticas públicas relacionadas à democratização da educação -, por intermédio da viabilização midiática, promova debates com linguistas e gramáticos a respeito do equivocado purismo linguístico, bem como realize um projeto de ensino de português básico e gratuito aos indivíduos carentes, a fim de diminuir o preconceito e a desigualdade entre os discentes. Espera-se,com essas medidas, uma sociedade que se orgulhe de suas heranças de cunho étnico-cultural.