Preconceito Linguístico
Enviada em 25/05/2021
Denominada como ‘‘Cidadã’’ por Ulysses Guimarães, a Constituição Federal de 1988, por ter sido concebida no processo de redemocratização, veda qualquer atitude preconceituosa que viole os direitos humanos. Entretanto, ao analisar o alarmante preconceito linguístico enraizado na sociedade, nota-se um contexto destoante dessa isonomia constitucional. Nesse viés, salienta-se a desigualdade social e o etnocentrismo como os entraves desse quadro, de modo que urgem medidas estatais.
Sob esse prisma, é imperativo pontuar que as assimetrias salariais, educacionais e laborais são causas do preconceito linguístico. Isso é exemplificado pela desigualdade social inerente ao cenário nacional, no qual existem os opressores e os oprimidos, na figura das populações privilegiadas e das desprestigiadas, respectivamente. Nesse sentido, o conceito de ‘‘Microfísica do Poder’’, arquitetado pelo filósofo Michel Foucault, ilustra bem tal perspectiva, uma vez que, segundo ele, o poder está em todos os lugares, com o intuito de moldar a lógica da sociedade opressora e manipuladora que engendra diversos tipos de comportamentos latentes. Analogamente, tais atitudes são evidenciadas na forma como a elite preconceituosa julga as variações linguísticas, sejam elas de origem diatópica, diastrática ou diasáfica. Destarte, as populações vulneráveis a esses graves atos discriminatórios encontram-se marginalizados do profícuo exercício da cidadania em diversos setores sociais.
Simultaneamente, como consequência dessa bifurcação social, o etnocentrismo empecilha ainda mais esse crítico panorama, haja vista que, diante do multiculturalismo, diferentes culturas e condutas entram em conflito por se polarizarem da forma de se falarem e de se expressarem. Esse impasse encontra eco no conceito de ‘‘Amensalismo social’’, do linguista brasileiro Jason Lima, o qual relata que os detentores de maior autonomia e poder social impedem o desenvolvimento dos desprovidos de políticas públicas. Paralelamente, é lícito afirmar que programas de relativismo cultural nas escolas podem simbolizar uma grande arma para a luta contra o preconceito linguístico, a fim de mitigar esse amensalismo presente na cultura nacional que obstaculiza o opimo progresso sociocultural do país.
Em suma, diante dos desafios supramencionados, fica clara a necessidade de medidas estatais. Portanto, com o fito de democratizar o acesso à cultura, para gerar simetria nos setores sociais, torna-se imperioso que o Ministério da Educação insira no currículo escolar atividades que estejam ligadas com a diversidade e as ramificações linguísticas, como palestras e movimentos educativos, com o objetivo de desencandear respeito e tolerância para as diversas classes sociais em todas as faixas etárias. Isso deve ocorrer mediante um pacote de políticas públicas a ser incluído no Plano Plurianual. Assim, toda a população brasileira usufruirá vultosamente nos decretos da Constituição Cidadã.