Preconceito Linguístico
Enviada em 28/05/2021
Na Idade Média, perpetuou-se o domínio de massas através da língua, utilizada como instrumento de poder pelo clero – membros da igreja com alto prestígio e únicos letrados naquela sociedade. Percebe-se, na atual realidade brasileira, semelhança em relação aos tempos medievais, com o uso de um português padrão, dominado pela elite como opressão: o preconceito linguístico. Seja por classe social, seja pela expressiva variedade cultural, faz-se imperiosa a análise da condição atual para a elaboração de caminhos para amenizar esse mal social.
Em primeiro plano, constata-se o baixo aceso à escola entre as classes mais pobres, tornando um entrave ao desenvolvimento de caminhos para superar a opressão linguística. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 34,7% da população nordestina é impedida do direito à escolarização. Nesse sentido, esse panorama evidencia o apodrecimento da educação brasileira, juntamente com o projeto de opressão das camadas mais ricas, uma vez que o estigma da língua propaga-se em cidadãos indigentes da pirâmide social. Atrelado a isso, é possível observar demasiada repulsão aos dialetos das regiões Norte e Nordestem ainda vistas como “atrasadas culturalmente” pela classe dominante. Evidencia-se, portanto, a língua como objeto de violência, sendo as vítimas os assolados do país.
Paralelo a isso, vale ressaltar a multiplicidade linguística em relação ao estima compreendido pela variedade cultural e à desigualdade social. Segundo Marcos Bagno, linguista brasileiro, o poder de dominação da norma culta por uma parcela da população - esta relacionada ao nível de escolarização - está entrelaçado a um aparelhamento de ascenção social. Destarte, evidencia-se a instrumentalização da língua como objeto de disparidade social e, assim, o desmantelamento da multiformidade da cultura dialética como apagamento e higienização histórica; a constante transformação da fala e escrita brasileira construiu dezenas de dialetos, variando social e geograficamente. Dessa forma, é evidente a intolerância em forma de poder em detrimento à sociedade e à língua nativa.
Portanto, infere-se a necessidade da formação de caminhos, em uma abordagem classista, para a superação do preconceito linguístico no Brasil. Nesse sentido, cabe ao Ministério da Educação, através de políticas públicas, elaborar projetos de inserção da população não-escolarizada em ambientes educacionais, com o intuito de mitiar os entraves desse estigma; assim como deve ampliar, juntamente à Secretaria da Cultura, o conhecimento e importância das variações linguísticas, em ação afirmativa, a fim de desconstruir bases deformadas da língua. Assim, construir-se-á um país livre das amarras medievais de dominação do povo, como as conferidas no clero no século V.