Preconceito Linguístico
Enviada em 11/08/2021
Na série de revistas em quadrinhos “Turma da Mônica”, o personagem Cebolinha é constantemente caçoado pelos seus colegas de bairro devido ao seu jeito peculiar de falar a letra “r”, trocando-a sempre pelo “l”. Fora da ficção, é fato que a sociedade brasileira pratica continuamente o preconceito linguístico, colocando a norma padrão portuguesa acima de todas as variantes linguísticas do país. Dessa forma, é necessário debater e desconstruir a ideia de superioridade linguística fomentada desde cedo nas escolas, uma vez que contribui para a segregação de grande parte dos brasileiros.
Primeiramente, é importante destacar que o sistema de ensino do Brasil ajuda a perpetuar a noção de que há apenas um modo correto de se falar a língua. Segundo o sociólogo contemporâneo Pierre Bourdieu, certos saberes são mais valorizados socialmente do que outros. Sob essa ótica, é notável que, nas escolas, o linguajar enaltecido pelos professores e coordenadores da instituição é aquela encaixada na norma culta padrão e falada da forma mais similar ao português de Portugal. Dessa maneira, falantes de regiões ao norte e nordeste do Brasil, por exemplo, são considerados menos inteligentes e, portanto, inferiores aos demais.
Consequentemente, a visão pejorativa acerca das variantes ao redor do país causa a segregação da parcela da população que não segue a norma culta. Durante o início do século XX, foi disseminada pelo mundo a Teoria da Eugenia, que acreditava na existência de um conjunto de características humanas perfeitas, excluindo e subjugando todo indivíduo que fugisse dos padrões criados pelos apoiadores da tese. Nesse contexto, é possível inferir que a atitude perpetuada na época também é praticada atualmente com falantes de outras regiões do Brasil, uma vez que seus modos de falar são diminuídos e caçoados, causando neles desconforto, constrangimento e um sentimento forte de exclusão.
Portanto, são necessárias medidas para resolver o problema do preconceito linguístico. Dessa forma, cabe ao Ministério da Educação promover o ensino dos demais dialetos do Brasil nas instituições educacionais, por meio de uma reforma na matriz curricular do ensino básico, a fim de proporcionar uma maior conscientização sobre as variantes linguísticas do país. Assim, seriam incluídos no conteúdo da matéria de língua portuguesa lições e debates sobre os diferentes modos de falar o português, destacando a falta de superioridade de um dialeto para o outro, contribuindo, então, para que casos de preconceito, como o sofrido pelo personagem Cebolinha, sejam cada vez menos presentes na sociedade brasileira.