Preconceito Linguístico

Enviada em 27/08/2021

A Constituição Federal de 1988 - norma de maior hierarquia do sistema jurídico brasileiro - assegura o princípio de isonomia, o qual todos os cidadãos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza. No entanto, na conjuntura contemporânea, nota-se que essa prerrogativa não é efetiva na prática, em decorrência da persistência do preconceito linguístico no cenário nacional. Nesse contexto, urge analisar como a gramática normativa e as relações socioeconômicas impulsionam tal problemática.

Convém ressaltar, a princípio, que a discriminação linguística está intrinsecamente relacionada à rigidez da gramática normativa. Segundo o sociólogo Pierre Bourdieu, a função do sistema de ensino é servir de instrumento das desigualdades sociais. Sob tal ótica, o rigor das normas gramaticas intensifica o preconceito em relação as variantes linguísticas, à medida que uma elite intelectual impõe uma maneira correta da escrita e oralidade do português. Desse modo, as instituições de ensino, em sua maioria, não valorizam a diversidade de dialetos existentes no Brasil e, consequentemente, propiciam a perpetuação de atos intolerantes no corpo social, como debochar do sotaque de outrem.

Outrossim, vale salientar a condição socioeconômica dos cidadãos como fator para a manutenção do preconceito aos regionalismos linguísticos. De acordo com uma pesquisa realizada pelo Datafolha, 30% dos brasileiros dizem ter sofrido discriminação por causa da classe social. Nessa perspectiva, milhares de pessoas com baixo poder aquisitivo não tiveram acesso a educação e, dessa maneira, não acompanharam as mudanças das regras gramaticais da língua padrão. Dessa forma, esses cidadãos pronunciam o português de diversas maneiras, o que ocasionou uma conjuntura fértil para a disseminação de atitudes discriminatórias por parte de indivíduos que consideram apenas um modo de falar correto.

Infere-se, portanto, que é imprescindível adotar medidas para mitigar a discriminação linguística no cenário nacional. Logo, cabe ao Ministério da Educação - órgão do Estado responsável pela formação civil - promover nas escolas, desde as séries iniciais, palestras e atividades lúdicas, as quais visem desmistificar os preconceitos concebidos aos dialetos e proporcionar uma ação reflexiva acerca das diversas variações linguísiticas, uma vez que as instituições de ensino possibilitam maior interação entre os indivíduos de classes sociais e lugares diferentes. Isso deve ser feito por meio de disciplinas, tais como português e sociologia, a fim de propiciar o contato dos discentes com distintas expressões do falar. Espera-se, com isso, a curto e longo prazo resolver esse imbróglio.