Preconceito Linguístico

Enviada em 08/10/2021

O autor brasileiro João Guimarães Rosa celebra em suas obras a excentricidade de sua terra, o norte de Minas Gerais, e usa-se muito das particularidades linguísticas para representar a essência do lugar. Apesar disso, a forma como diferentes sotaques, expressões e construções gramaticais típicas de uma identidade desviam da norma padrão ainda ocasiona em muitos revolta e preconceito. Nesse sentido, a discriminação linguística existente no Brasil, configurada pelas desigualdades socioeconômicas e pelo desrespeito ao caráter patrimonial da língua, merece enfrentamento.

A princípio, vale ressaltar como as disparidades econômicas, sociais e culturais podem intensificar a problemática. Segundo Pierre Bourdieu, é possível identificar padrões de escolha entre os indivíduos, que define um estilo de vida similar a toda uma classe. Dessa forma, condiciona-se o nascimento de excentricidades na fala de diferentes grupos, conforme os elementos do cotidiano de cada um. Assim, enquanto classes com maior poder aquisitivo priorizam o ensino unicamente da norma culta, indivíduos mais pobres e de educação precária muitas vezes não dominam a língua padrão da mesma forma. Assim, as distinções da língua tornam-se alvo de opressão e preconceito.

Ademais, é válido entender como a Língua Portuguesa constitui um patrimônio cultural brasileiro. Haja vista, o contexto histórico de formação do Brasil, o qual resultou do sincretismo de populações de diferentes países, é possível detectar elementos característicos que explicitam esse processo. Em consonância com a filósofa Hannah Arendt, a pluralidade enquanto condição humana é fundamental tanto à constituição quanto à compreensão daquilo que venha a ser humanidade. Logo, as disparidades linguísticas, principalmente regionais, são fruto direto de sua utilização como ferramenta do povo, sendo exemplo expressões como “nossa”, que vem da figura de “Minha Nossa Senhora”, e retoma a força da religião católica na criação do Brasil.

Portanto, medidas são necessárias para a garantia do bem-estar da coletividade. Para tanto, cabe ao Ministério da Educação promover o ensino das diferentes tradições e respeito às diferentes identidades brasileiras, por meio de palestras e exercícios escolares dinâmicos que explorem as diferenças linguísticas típicas, como também a importância de preservá-los como patrimônio cultural. Por fim, tais mudanças prometem evidenciar a forma como a Língua Portuguesa não atua de forma necessariamente atrelada à gramática padrão.