Preconceito Linguístico
Enviada em 08/10/2021
O cantor Lenine, em sua canção “Jack Soul Brasileiro”, exalta a notável concentração de ciclos culturais recíprocos no Brasil, que supostamente deveriam massificar a liberdade de expressão de uma miríade de tradições. Contudo, o contexto brasileiro ainda torna a deturpar tal preceito quando se observa o preconceito linguístico na sociedade hodierna, uma ameaça ao caráter inclusivo da identidade nacional. Por isso, é mister compreender sua ocorrência como resultado da negligência educacional e da falta de inclusão na indústria artística.
Convém ressaltar, destarte, que, diante do alastramento do discurso de ódio a línguas indígenas nas redes, a pífia abordagem escolar sobre o entrave omite a importância da heterogeneidade social da nação. Conforme o filósofo Sócrates, o processo de aprendizagem deve provocar a reflexão discente quanto a opiniões prefixadas, de modo a reverter ultrajes no pensamento do aluno. Nesse sentido, a partir da evidente tecnicização da aprendizagem nacional, o corpo educador abre mão do debate pautado em inúmeras pré-concepções que banalizam anseios minoritários, o que, ao mesmo tempo, afronta o ideário do pensador e perpetua condutas discriminatórias contra costumes de tribos nativas na “web”. Assim, tal conjuntura endossa linchamentos verbais centrados em tão exóticos vocabulários na internet, consoante à carência de criticidade infanto-juvenil nesse aspecto.
Seria imprudente omitir, outrossim, que a marginalização de usuários de expressões interioranas nos ambientes de socialização advém de sua diminuta representatividade na produção artística nacional. Nesse sentido, a célebre franquia de gibis “Turma da Mônica” supera raízes primitivistas na cultura do Brasil quando, em conformidade ao título de “país da diversidade” por ele adquirido, demonstra a plena possibilidade de inserção da oralidade camponesa no cotidiano por meio de Chico Bento - personagem de origem rural e usuário de regionalismos, o qual possui capacidades interativas similares à dos demais integrantes das tramas. No entanto, ainda é limitada a cobertura de uma miríade de “Brasis” presentes em toda a federação na arte, uma vez que, por muito tempo, esta idealizou formas e condutas humanas. Assim, perpetua-se a estigmatização do falar campestre em detrimento da integração social.
O Estado deve, portanto, combater o preconceito linguístico. Dessa forma, urge que o Ministério da Educação - órgão distribuidor de recursos ao cenário educacional brasileiro - crie, por meio de verbas governamentais, palestras escolares acerca da temática, a fim de relacioná-la à exclusão artística. Outrossim, cabe ao IBGE a renovação de dados que tangem à discriminação virtual centralizada, com o fito de evidenciar suas proporções. Somente assim as aspirações do cantor serão concretizadas.