Preconceito Linguístico
Enviada em 16/10/2021
Na obra de Monteiro Lobato, “Jeca Tatu”, o protagonista que dá nome ao livro é uma construção caricata do homem camponês, caracterizado pelo jeito matuto, indicando também a falta de escolaridade ao falar caipira. Nesse sentido, é perceptível, ainda na atualidade, a difusão de tais estereótipos pejorativos, os quais devem ser desestruturados, para que, superando a exclusão ocasionada pelo desconhecimento, haja respeito quanto ao falar diverso do povo brasileiro. Primordialmente, convém analisar a importância do campo linguístico, a fim de que se percebam as incoerências e problemas da exclusão. De acordo com o psicólogo e pesquisador russo Lev Vygotsky, a linguagem é o fator que concede ao homem a possibilidade de compreender e interpretar o mundo ao seu redor. Nessa perspectiva, privar indivíduos da expressão pessoal, baseado somente em uma visão purista da língua, é lhes impedir de demonstrar a própria manifestação de suas particularidades. Ademais, cabe destacar o caráter cultural do falar, sobre o qual há desconhecimento e pouco interesse, elementos que estimulam as atitudes discriminatórias. Segundo o filósofo e linguista Ferdinand de Saussure, a fala não pode ser entendida como estática ou única, uma vez que é ela um ente vivo, transformado constantemente pelas interações sociais. Desse modo, a esfera de valores e formações distintas peculiares ao Brasil torna, também, nossa língua móbil e diversa, condição enriquecedora que, oposto ao que se vê hodiernamente, deve ser valorizada.
Infere-se, portanto, que medidas sejam tomadas contra discriminações relativas às diferenças linguísticas. Para isso, cabe às universidades e escolas, enquanto formadoras de cidadãos, promover discussões sobre tais problemáticas. Além disso, devem ser realizados, no currículo da disciplina de Língua Portuguesa, planejamentos voltados para o estudo mais aprofundado da variabilidade linguística, abrangendo a diversidade regional e cultural. Nesse sentido, podem ser realizadas também oficinas de leitura e encenação de manifestações artísticas regionais, que demonstrem o valor do diferente. Somente assim, o preconceito linguístico será combatido e não seriam rotulados novos “Jecas” na atualidade.