Preconceito Linguístico

Enviada em 21/10/2021

Para Platão, fiósofo grego da Antiguidade, a qualidade de vida ultrapassa a própria existência, pois, para ele, o importante não é viver, mas viver bem. Sob tal ótica, é evidente que a prática do preconceito linguístico, sobretudo no contexto brasileiro atual, é uma forma de violação da individualidade, a qual impede que as vítimas desse ato vivam o ideal platônico, o que configura um grave problema sociocultural. Assim, isso se explica não só pela ignorância do povo, mas também pelo etnocentrismo.

A princípio, é imperioso destacar que o tema em questão é fruto da desinformação da população. A esse respeito, torna-se essencial ressaltar  que a falta de investimento público no incentivo à cultura é determinante nesse processo. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, somente 0,21% das despesas públicas é destinada para esse setor da sociedade. Nesse contexto, sem o acesso à informação, muitas pessoas não compreendem a diferença entre a gramática normativa e a língua e, por isso, julgam diversas variantes linguísticas como incorretas. Consequentemente, grande parte dos brasileiros é vítima de constrangimento e de humilhação constantes devido ao seu modo de falar, o que é extremamente grave, pois fere o princípio constitucional de liberdade de expressão.

Outrossim, a dicussão em curso deriva ainda da persistência do etnocentrismo no Brasil. Nesse sentido, assim como Émille Durkheim afirma que o homem é produto da sociedade em que vive, convém ressaltar que tal cenário é proveniente da forma de colonização escravista e exploratória ocorrida no país. Isso porque, mediante a perseguição contra nativos indígenas e imigrantes africanos, estabeleceu-se uma imposição cultural europeia sobre esses indivíduos, a qual criou raízes profundas na sociedade ao longo dos séculos. Em virtude disso, até os dias atuais, percebe-se o preconceito linguístico contra dialetos e variantes indígenas, o qual se revela, por exemplo, na noção de que o índio não sabe falar e de que não está apto para entrar no mercado de trabalho, intensificando a segregação social. Logo, são necessárias ações que revertam esse quadro  proveniente de séculos de história.

Portanto, de modo a encerrar o dilema do preconceito linguístico no Brasil, medidas exequíveis devem ser tomadas. Primeiramente, cabe ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, em parceria com o Ministério da Cultura, destinar mais verba para o setor cultural. Isso deve ser feito por meio do investimento na disponibilização gratuita de palestras e eventos em espaços públicos - com a presença de profissionais em linguística - que atuem na conscientização do povo a respeito da importância das variantes linguística, a fim de que se reduza a desinformação sobre esse tema. Ademais, compete ao Ministério da Educação fomentar o combate ao etnocentrismo e ao preconceito contra índios por meio de campanhas publicitárias nos mais diversos meios de comunicação.