Preconceito Linguístico

Enviada em 16/11/2021

A Constituição Federal de 1988, documento jurídico mais relevante do país, resguarda, em seu artigo 215, a liberdade cultural como direito inviolável à pessoa humana. Contudo, tal premissa não tem se reverberado com ênfase na prática ao se observar o contexto de preconceito linguístico vivenciado no Brasil, impedindo a universalização dessa cláusula tão importante. Posto isso, urge que medidas atitudinais e estruturais sejam tomadas para a revogação dos fatores que favorecem esse cenário, seja a mentalidade néscia da coletividade, seja a carência de políticas públicas que desfaçam essa construção social fundamentada na discriminação.

Sob esse viés, é indubitável que a intolerância enraizada na sociedade esteja entre as causas do problema. Consoante o movimento modernista do Brasil do século XX, é possível observar que, na sua fase regionalista, os autores empenharam-se em evidenciar a diversidade linguística do país, sobretudo a nordestina, a fim de criar uma identidade nacional das artes e romper com o modelo de literatura europeia. Todavia, é notório na contemporaneidade que, diferente dos escritores modernistas, o nativo brasileiro tem usado o poder da língua, não para promover a união entre os povos do território, mas para causar a segregação entre eles, uma vez que age preconceituosamente com o indivíduo que possui hábitos vocabulares distintos dos seus.

Outrossim, vale ressaltar a ausência de ações governamentais como um fator potencializante da problemática. Segundo a obra´´Preconceito Linguístico``,do linguista mineiro Marcos Bagno, o assédio à língua é resultado da construção social de um padrão imposto por uma elite econômica e intelectual que considera erro tudo o que se diverge desse modelo. Concomitantemente a isso, sabe-se que, ainda no tempo presente, esse protótipo elitista vem sendo reafirmado pelas instituições de ensino, haja vista que a norma padrão da língua recebe mais importância que o ensinamento de sua heterogeneidade. Essa conjuntura, conforme as ideias do filósofo contratualista John Locke, viola o Contrato Social, visto que o governo não cumpre a sua função de garantir liberdade de cultura ao cidadão.

Infere-se, portanto, a necessidade de se combater esses obstáculos e assegurar a aceitação à pluralidade da língua portuguesa dentro da sociedade civil brasileira. Com vistas a atenuar o problema, o governo federal, por meio de uma parceria junto às emissoras abertas de televisão, deve promover campanhas de abrangência nacional que abordem os diversos dialetos vigentes nas cinco regiões do país, como forma de familiarizar o telespectador com tais linguajares. Ademais, o Ministério da Educação deve disponibilizar um curso online e gratuito aos professores de português de modo a aprimorar seus conhecimentos acerca da diversidade vocabular e melhorar a compreenssão em classe.