Preconceito Linguístico

Enviada em 27/01/2022

No filme “O Auto da Compadecida”, adaptação do livro escrito por Ariano Suassuna, é possível notar que a forma como cada personagem fala é diferente, o que está ligado tanto com a nacionalidade quanto com a personalidade e história de cada um. De maneira análoga, pelo fato do território brasileiro ser vasto e de existir uma grande diferença comportamental em cada uma das suas cinco regiões, o país apresenta modos de pronúncia diversificados, o que gera preconceito linguístico. Isso acontece porque falta representatividade midiática, o que gera um estigma com relação ao certo e errado.

Diante desse contexto, é válido ressaltar que a carência de exposição a modos de falar que fogem do tradicional incita a discriminação linguística. Nessa lógica, a série nacional “3%” é uma das poucas que trás à tona a diversidade da língua portuguesa e mostra que a maneira padrão não é necessariamente a correta. Contudo, a representação de pessoas que têm sotaques diferentes é ínfima e, na maioria das vezes, quando existe, mostra personagens que não têm muita importância e que são menosprezados por esse tipo de característica, já que essa, muitas vezes, é considerada ruim. Assim, conclui-se que a mídia negligencia essas questões e, como consequência, intensifica estereótipos contra indivíduos com formas variadas de se expressar e estimula atos preconceituosos.

Dessa forma, a falta de visibilidade dada a complexidade da Língua Portuguesa acarreta uma sociedade sem conhecimento e intolerante. Um exemplo claro está no reality show “Big Brother Brasil”, no qual a participante vencedora da edição do ano de 2021, Juliette Freire, sofreu várias formas de descriminação que foram motivadas pela sua maneira de falar. Em suma, os participantes criticaram seu tom de voz e seu sotaque, que são típicos da região Nordeste, e associaram isso à falta de classe por parte da jogadora. Isso mostra que a carência de contato das pessoas com certas variedade do português causa um estigma com relação ao que é certo e errado, o que é um indício de a negligência das mídias em mostra-las ser um fator contribuinte para agravar a situação.

Portanto, cabe ao Estado assegurar que haja representatividade, em vista de alcançar uma sociedade cada vez mais livre de preconceitos. Para isso, precisa estimular, por meio de incentivos monetários, a participação de brasileiros de todos os estados em novelas e filmes nacionais. Também, é preciso que uma parcela dos papeis importantes seja dada para as pessoas com formas de falar menos comuns, o que ajudará a evitar estranhamentos. Desse modo, será muito mais fácil que o corpo civil entenda e normalize a variedade linguística e, dessarte, o desafio de combater essa mazela social será cada vez menor.