Preconceito Linguístico
Enviada em 20/03/2022
No famoso poema “Pronominais”, o escritor modernista Oswald de Andrade alude à diferença entra a norma culta e a linguagem popular, como expressam os versos:“Dê-me um cigarro/diz a gramática/…/mas o bom negro e o bom branco/…/dizem todos os dias/deixa disso camarada/me dá um cigarro”. Fora da literatura, observa-se uma postura repressiva à língua coloquial no Brasil, o que configura preconceito linguístico. Esse cenário resulta de um árduo processo histórico, somado à manutenção das desigualdades sociais no presente.
Diante de tal conjuntura, cabe analisar a história do território nacional para entender as raízes do preconceito linguístico no país. Isso ocorre porque o sistema colonial, fomentado pelo etnocentrismo vigente, instituiu a Língua Portuguesa como oficial no Brasil, de forma a desprezar dialetos nativos e variações regionais. Esse contexto foi atrelado a um sistema de ensino elitista e tradicional—restringido à alta sociedade—que difundia a norma culta como único modelo a ser seguido. Dessa forma, conclui-se que o desprezo a variantes da linguagem foi perpetuado por séculos no solo brasileiro.
Ademais, vale destacar que os frutos de um passado desigual e conservador no ensino da Língua Portuguesa ainda apodrecem no século XXI. Essa ótica é avaliada na permanência de um ensino atrasado e segregador, que ainda mantém os mais pobres sem ingresso na educação, ao passo que molda aqueles que a acessam. Assim, é gerado um estigma por parte de pessoas mais instruídas, as quais, muitas vezes, desdenham de variações que fujam à norma culta e geram um preconceito linguístico que, segundo a estudiosa Marta Scherre, afeta um dos maiores legados do indivíduo e retira seu direito de expressão.
Portanto, medidas são necessárias para mitigar a problemática do preconceito linguístico no Brasil. Logo, cabe aos institutos educacionais promover ações de combate ao transtorno, por meio de palestras que abordem o respeito à variedade linguística do país e exponham a importância da diversidade dialética para o patrimônio nacional. Tal ação deve contar com a presença de especialistas em Letras, artistas e escritores, a fim de sensibilizar os estudantes, pondo em prática as ideias de Andrade.